Feliz Natal e Feliz 2014!






Parece-me que o Natal tem na sua essência a mesma mensagem, seja para cristãos ou não-cristãos.
É uma altura em que o melhor que existe na humanidade - essa luz simbolizada numa estrela cadente - procura nascer e manifestar-se no mundo, no dar, no amor que partilhamos, nos bons sentimentos que se despertam, no cuidado para com o próximo, na reunião de pessoas que se buscam... 
O Ano Novo é por excelência um dos marcos que nos incentiva a fazer uma revisão de contas no extracto bancário da Vida, a nos questionarmos o que queremos dela e se estamos de facto a viver a vida da melhor maneira, na direcção que escolhemos, ou se está na hora de fazer uns ajustes.
São ambas alturas, oportunidades e chamadas de atenção que, no fundo, existem a cada nascer do sol: todos os dias temos a oportunidade de sermos o melhor que podemos ser e de nos renovarmos ao reavivar a luz pura da humanidade que existe bem dentro de nós. 
E assim, desejo a todos um FELIZ NATAL e um BOM ANO NOVO, e que estas datas não passem em vão sem vos deixar estes presentes muito especiais dentro do coração: um sentido para a vida, amor, coragem, esperança, e determinação na procura dos vossos caminhos, cada um único e especial à sua maneira.
Porque estes presentes permanecem para sempre.
Desejo-vos o melhor que a vida vos possa dar!

Vingança, filha da ignorância



Créditos fotográficos: Tuhin

"É muito comum escutarmos que tal pessoa tem o gênio forte, porque não leva "desaforo para casa". 
Ou então, que se nosso "orgulho" for ferido, devemos devolver o insulto com a mesma intensidade.  
Não agir desta forma é visto como uma covardia, uma fraqueza, falta de personalidade.  
Tomou-se como "ponto de honra" a necessidade de retribuir-se o mal com o mal. O resultado é que a cada dia aumenta a violência em todos os setores. Não percebemos, mas contribuímos diariamente para que isso se propague. 
Se analisarmos nosso cotidiano, veremos que tanto em nossa casa, no trabalho e até no lazer nos melindramos por qualquer discordância de ponto de vista. Também não deixamos que a opinião que emitimos seja contrariada; que nossos desejos, às vezes absurdos e egoístas, sejam ignorados.  
Ai daquele que se opuser às nossas vontades! Mesmo que seja só em pensamento, passamos a desejar que aquela pessoa passe por poucas e boas. Sentimos uma estranha satisfação quando alguém que não gostamos ou nos desentendemos sofre dificuldade. 
Só isso já demonstra o que realmente temos dentro de nós: egoísmo.  
Há casos, então, em que a vingança se torna patente. É o que acontece quando tomamos conhecimento de crimes hediondos. O primeiro sentimento é de desejarmos que o indivíduo sofra na própria carne a dor que fez os outros passarem. Então, passamos a ser cúmplices da violência, incentivando-a inconscientemente.  
Com isso, no quê nos diferenciamos dos animais?  
A vontade de ver a justiça sendo feita muitas vezes nos torna injustos. Isso porque a visão da realidade que nos cerca pode ser distorcida por uma série de fatos, que vão desde o desconhecimento dos motivos do que está ocorrendo até a manipulação de informações.  
Desencorajar a vingança não significa ser conivente com o mal. Pelo contrário, mostra a necessidade de combatermos a maldade com razão e não com o ódio e a emoção que cegam e destroem.  
Matthieu Ricard


O reflexo do relâmpago





Na obscuridade da noite, senti o ar carregado.
O cheiro a terra envolvia, e as nuvens acima pareciam congregar-se para uma reunião dos deuses. A princípio caíram umas tímidas gotas. E logo cessaram. Uns instantes de silêncio escuro anunciaram o intenso clarão que subitamente surgia, rasgando o céu aberto, esventrando ouvidos com o seu estrondo azul.
Parei para ver.
As nuvens beijavam violentamente o solo, que jazia sereno. Teias velozes percorriam a extensão do céu, iluminando o negrume que me envolvia como um manto profundo. O meu coração, acelerado, expandia-se ao som de cada trovão e vibrava alegremente. 
A noite quente adensou-se.
Os passos apressados na calçada silenciavam-se. Definhavam de volume, assim como o canto das folhas nas árvores e o lamento do vento. A voz do trovão tudo preenchia e o meu entorno tornou-se distante. Absorta, entreguei-me ao fulgor ensurdecedor dos relâmpagos e abracei o medo mudo da morte e a paixão cega de viver. 
A centelha resplandescente que habita em mim pedia-o.
Ela queria percorrer o céu dos pensamentos, as planícies de veludo cinzento dos sonhos, e sair das nuvens chorosas das emoções para beijar o chão húmido da vida. Desejava libertar o seu poder imenso e dar luz na escuridão medonha da noite. Queria abafar todos os burburinhos superficiais e inúteis com o seu som imponente, arrebatando grandiosamente o coração. 
Olhei o horizonte e mergulhei no infinito.
Perdi os minutos e os minutos roubaram horas. Subitamente, senti uma calma enternecedora e permaneci, por momentos, no berço da Vida. Pouco a pouco, voltei novamente a ouvir ao longe passos apressados, o canto das folhas e o lamento do vento. Um candeeiro ressuscitava e iluminava a minha face. 
A trovoada findava.


Tem o hábito de fantasiar?

Parece-te um urso polar?

Uma das (muitas) raízes dos nossos males é a fantasia. 
E o que é a fantasia?
Fantasia não é o mesmo que Imaginação. A imaginação obedece a um impulso de vontade sobre a mente: nós controlamos as imagens que ela despoleta e as levamos ao fim que queremos. 
Neste ponto é necessário compreender que querer e desejar também não são a mesma coisa. Como exemplo, posso desejar ficar na cama a dormir de manhã (e agora de Inverno, que bem nos vai saber!), mas no fundo o que queria mesmo era levantar-me e fazer do meu dia produtivo, o que me irá fazer sentir mais feliz e satisfeita comigo mesma - ainda que seja só a longo prazo - do que ceder aqui e agora à preguiça, ao satisfazer de um desejo momentâneo de conforto, para depois ter problemas por chegar atrasada, por ir a correr e esquecer-me de algo importante, ou apanhar trânsito e ficar a manhã toda irritada quando podia ter evitado isso ao sair com mais antecedência, ou até ter algum acidente. 
A fantasia surge quando a mente perde-se ao sabor dos desejos: as imagens mentais não são controladas, as emoções também não e os actos são assim influenciados pelas mesmas. Muitas vezes surgem repetidas vezes, em loops circulares que drenam a nossa energia e fazem-nos até sentir mentalmente cansados, espantando-nos depois porque dizemos que "eu até nem fiz nada para estar assim tão cansado". A fantasia pode inclusivamente degenerar em dimensões patológicas, como sabemos pela psiquiatria. 
O magnífico trabalho de Walt Disney é um exemplo de uma imaginação fabulosa. As suas obras são recheadas de valores morais, lições e simbolismo, conseguindo assim com as suas imagens transmitir bons ideais e belos sentimentos a várias gerações de pessoas. 
No entanto, a todo o devaneio de querer algo que nos satisfaz apenas os desejos, que deixamos correr na nossa mente ou pelas nossas emoções sem rédea alguma, a esse impulso, chamamos de fantasia.
Sobre este tema deixo-vos aqui um exercício que era feito aos aspirantes na escola Pitagórica (do filósofo Pitágoras), que, depois de terem já passado por provas que a boa maioria de nós provavelmente não seria capaz de passar, sujeitavam-se a diversas questões. 
Consistia na pergunta:

O que vês aqui?


Responde e põe-te à prova! 

Vá lá, tenta, não passes logo à resposta! :)

Este teste consistia em distinguir os alunos que se deixavam dominar pela fantasia, daqueles que, tendo mão das suas emoções e da sua mente, conseguiam assim ver a realidade sem filtros e sem "fazer filmes". A resposta mais comum a este teste é "um triângulo", no entanto, a resposta correcta é "três pontos". Esta última é o que realmente existe, a primeira é o que a mente fabrica. A nossa mente leva-nos por vezes a ver coisas que na realidade não existem pois ela está optimizada para ver padrões, para descodificar significados, etc., tudo para tornar a nossa existência física o mais automatizada possível para que possamos ter o tempo e a disponibilidade para exercitar outras faculdades mais características do ser humano e menos sobrevivencialistas. No entanto, se a mente não for uma ferramenta que dominamos, pode muito bem destronar-nos e passar ela a reinar em todo o tempo. Está aí a origem de muitos dos nossos males. É assim que passamos a entender coisas que os outros na realidade não disseram, vemos coisas onde na realidade não existem, criamos espectativas irreais porque criámos uma fantasia em torno de algo e antecipamos coisas terríveis antes de acontecerem como se fossem uma inevitabilidade matemática, mas que se analisadas, veríamos que não há assim tanta razão quanto isso para tais convicções.

Por isso, há que travar a fantasia logo no seu início, arrancar essas ervas daninhas da mente antes que façam estrago ao crescer descontroladamente. Não deixar a mente divagar sem rumo, no ócio, é um bom método. Focar a mente no útil, no bom e no belo. A erva daninha sem os cuidados da água fresca não se aguenta por muito tempo e cedo morre. Cultivar a imaginação faz-se ao fixar as imagens e pensamentos que realmente queremos ter, de forma constante e regular no tempo, com um esforço de vontade, afastando tudo o resto. É o que se faz nas meditações, que é uma forma de higienização e disciplina da mente, para que ela possa ser uma ferramenta útil e não um empecilho. Ao início pode ser difícil fazê-lo porque a mente está habituada a fazer o que quer e como quer. E como uma criancinha com birra, vai chorar e dar luta, até chega a fazer chantagem e tentar enrodilhar-nos em armadilhas para nos fazer desistir do que estamos a tentar fazer. Afinal, estamos a invadir o terreno da mente e a dizer-lhe que a partir de agora, quem governa somos nós. Claro que isso não será obtido muito facilmente, como acontece com todos os hábitos enraizados que tentamos mudar. É tentar esvaziar a mente ou concentrá-la em algo específico que não se deve alterar (de forma, cor, posição, etc.) sem querermos e logo lá vêm os pensamentos todos relacionados com os nossos problemas, preocupações, etc, a distrair-nos. Indica falta de capacidade de concentração. Mas há medida em que se persiste e treina, vai sendo mais fácil, e após algum tempo percebemos claramente a diferença entre uma mente que começamos a dominar e a dirigir e uma mente que nos domina a nós e nos cria impulsos aos quais nós cegamente obedecemos, trazendo-nos por vezes consequências desagradáveis.
Deixo-vos aqui estas pequenas dicas para começarem a reparar mais no que se passa na vossa cabeça e a ganharem mais controle sobre esse mundo interior.
Assim se educa a mente, e uma mente sã, é um bom passo para seres um ser humano melhor e mais feliz.

E tu, já fotosophaste hoje? 





Escrita criativa




Distraí-me.
A minha mente, como uma bússola, aponta sempre para ti.
Perdi-me nos pensamentos que me orientam por entre os trilhos da memória. Perdi-me para te encontrar. Jazes nas brumas, nos lençóis do tempo, no espreguiçar de um suspiro profundo.
No meio deste bosque de ilusão procuro-te, recordando sonhos perdidos, velhos fantasmas que perseguem a sombra dos meus dias, num arrebatar estonteante por entre as ondas encrespadas que me ameaçam ao longe.
Navego estas lágrimas salgadas que já não mais tocam o meu rosto lívido.
Sopra um vento de cetim e as folhas do meu pensamento escrevem novos versos. A Primavera rompe neste prado sombrio e pincela, aqui e ali, alegria em cores vivas.
Agora, não és mais que cinza frágil rodopiando num lugar longínquo. Esqueci-te.
E a minha bússola, finalmente, encontra um novo Norte.

O que é a felicidade?




"A felicidade é quando o que pensas, o que dizes e o que fazes estão em harmonia."

Mahatma Gandhi



A única busca da nossa vida é esta: sermos felizes. E sermos felizes vai muitas vezes contra as nossas aspirações e expectativas. Por vezes, encontramo-nos num ponto em que obtemos o que sempre desejámos, depois de muito tempo de olhos postos nesse horizonte, e tristemente, quando lá chegamos, descobrimos que a sensação de felicidade não dura eternamente. Voltamos a sentir um vazio qualquer, e novamente, outro desejo por cumprir nos leva para outra rota e à infelicidade associada à insatisfação desse novo desejo que surge. Assim vamos vivendo a vida numa ondulação sinusoidal que nos transporta a uma dualidade sem fim, entre extremos de maior ou menor amplitude. O pior disto tudo é que esta ondulação torna-se viciante: as experiências necessárias para obter a mesma sensação, tornam-se ao longo do tempo mais exigentes e duram cada vez menos, levando à procura incessante de novas "felicidades" que se esfumam com o vento.

A felicidade não pode ser então algo que se obtém apenas num ponto espácio-temporal definido. A esse sentimento pontual que não perdura poderíamos chamar de satisfação, contentamento, alegria, mas certamente não de felicidade, aquele estado interior que não comporta um padrão de vício.

Caímos muitas vezes no erro de pensar que estamos felizes quando tudo está bem, quando temos tudo o queremos, quando estamos preenchidos e satisfeitos em todas as nossas necessidades. Isto não é verdade, e constitui uma falsa premissa que nos afasta da verdadeira felicidade, sem que nós sequer o suspeitemos. Porque veja-se: somos capazes de sentir felicidade quando nos sacrificamos por alguém que amamos, apenas por fazermos essa pessoa feliz. Somos capazes de ter problemas, mas ao mesmo tempo, sorrir e ajudar quem está ao nosso lado, e curiosamente, todas as nossas dores deixam temporariamente de existir para dar lugar à felicidade de dar o que o outro precisa.

A felicidade é independente das circunstâncias, e como tal, precisamos de aprender a vivê-la em todas as situações. Para isso, temos que reestruturar e harmonizar todo o nosso ser, a começar pela nossa mente, pois pelos nossos pensamentos surgem emoções associadas (e vice-versa), que por sua vez se ligam a situações concretas e com suficiente hábito, passam a funcionar como mecanismos automáticos, podendo afastar-nos da nossa felicidade ou aproximar-nos consoante esse hábito seja benéfico ou não.

Reconhecer e alterar a polaridade dos nossos padrões negativos mentais e emocionais, aproxima-nos da felicidade. Para os reconhecer é imprescindível ter o comando de uma das nossas ferramentas: a atenção. Ela é fundamental, já que é pelo exercício da atenção que nos apercebemos do que estamos a pensar neste exato momento, que emoção se despoletou em nós em dada situação, qual foi a reacção que provocou em nós (muitas vezes até impulsivamente), e quais foram as consequências dessa cadeia de reacções das quais nós raramente temos consciência. 

É de ter em atenção que a atenção, se não for uma ferramenta ao nosso serviço, pode como tudo, virar-se contra nós. Aquilo a que cientificamente se chama "cegueira atencional", deve funcionar para nós como a maior motivação para cultivarmos a atenção naquilo em que nos queremos mesmo focar. Estes termos designam o que acontece quando nos focamos totalmente em algo: toda a realidade fora do foco da atenção é ignorada, mesmo quando são coisas tão berrantes que noutra situação detectariamos imediatamente. Por isso, se mantivermos uma atenção nas coisas que na verdade não interessam à nossa felicidade, todos os elementos que ao nosso redor poderiam contribuir para ela são pura e simplesmente ignorados e descartados, já que estamos cegos para este mundo que se situa para além dos limites do nosso foco.

Por isso é que a atenção correcta é o 7º passo do Nobre Caminho Óctuplo de Buda - o caminho que conduz à cessação do sofrimento. Este passo consiste em ter a perfeita consciência, pela atenção treinada, de todas as nossas acções, emoções, pensamentos, o que falamos e como falamos; é ver a verdadeira natureza por detrás de todas essas coisas e poder assim escolher a harmonia, o que nos traz a verdadeira felicidade.



Vive sem arrependimentos





Desde muito cedo que sempre pensei que queria viver a minha vida conforme o que eu própria queria fazer dela. Queria ser a autora das linhas do livro da minha vida e não ser um fantoche nas mãos das circunstâncias dessa vida. Fossem boas ou más experiências, seriam aquelas cuja génese estaria na minha vontade, na minha escolha e na minha consciência. Não há nada pior do que viver segundo os cânones dos outros, para agradar este ou não desiludir aquele, para mantermos uma imagem de nós mesmos, perante nós e o mundo, que julgamos ter que existir. Nem sempre o consegui, por vezes os medos e pressão da sociedade nos inibem e fazem-nos temer as consequências (reais ou imaginárias) de sermos nós próprios, mas nos momentos em que o fiz pude sentir o que é "ser eu mesma". Houve vezes em que escolhi certo, noutras escolhi errado, mas agora que olho para trás vejo um desenvolvimento, efectuado por linhas rectas ou curvas, que não se daria de outro modo. Sinto assim que evolui à custa das minhas escolhas, assumo a responsabilidade das mesmas e não há melhor recompensa do que sabermos que somos melhor hoje do que fomos ontem. Isto dá-nos o impulso para continuar a viver e a almejar por dias ainda melhores, atingidos por vias rectas ou curvas, mas ainda assim atingidos.

Muitas vezes pensava que não queria chegar à velhice com arrependimentos de não ter feito isto ou aquilo; que pior do que nos lamentarmos de erros passados, é lamentarmo-nos de ter vivido uma vida passiva, inerte, medrosa, incapaz de revelar um só brilho do nosso ser. Preferia, pensava, morrer ao atirar-me de um abismo, com plena da convicção de que esse seria o caminho a seguir, do que morrer na ilusão da segurança de um conforto aparente por ter sucumbido ao medo, ao pânico e à solidão dentro das amarras de uma personalidade fechada, de um muro intransponível de onde só se avistariam as sombras e barulhos do mundo exterior cujo poder de amedrontar um ser fraco e indefeso o levaria inevitavelmente a um destino pior do que a morte: a da zombificação em vida.

É importante sermos autênticos. Não o sabemos ser se em cada dia não desvelarmos cada vez mais esse Eu que se esconde por detrás de espessas camadas de adaptação às condições em que crescemos, ao mundo em que vivemos e à sociedade a que pertencemos. Devemos destacar-nos dessa máscara para nos distinguirmos dela e podermos ver quem realmente somos.

Esta foi uma das cinco coisas que as pessoas geralmente se arrependem antes de morrer, foi o que constatou Bronnie Ware, uma enfermeira autraliana que trabalhou com doentes terminais. É na proximidade da inevitabilidade da morte que nos apercebemos do que realmente importa na vida. No seu blog, Inspiration and Chai, Bronnie aponta aquilo que os pacientes frequentemente gostariam de ter feito de diferente na sua vida. 

O Verão é aquela altura do ano em que mais apetece celebrar a vida, por isso, para que comeces a viver aqui e agora plenamente, e que chegues ao fim do teu caminho com um sorriso nos lábios a pensar "Foi boa a minha vida", aqui ficam os 5 maiores arrependimentos destes pacientes:


Quem me dera ter tido a coragem de viver de acordo com as minhas convicções e não de acordo com as expectativas dos outros. 
«Este é o arrependimento mais comum. Quando as pessoas se apercebem de que a sua vida está a chegar ao fim e olham para trás, percebem quantos sonhos ficaram por realizar. (…) A saúde traz consigo uma liberdade de que poucos se apercebem que têm, até a perderem.»


Quem me dera não ter trabalhado tanto. 
«Este era um arrependimento comum em todos meus pacientes masculinos. Arrependiam-se de terem perdido a infância dos filhos e de não terem desfrutado da companhia das pessoas queridas. (…) Todas as pessoas que tratei se arrependiam de terem passado muita da sua existência nos ‘meandros’ do trabalho».


Quem me dera ter tido coragem de expressar os meus sentimentos. 
«Muitas pessoas suprimiram os seus sentimentos, para se manterem em paz com as outras pessoas. Como resultado disso, acostumaram-se a uma existência medíocre e nunca se transformaram nas pessoas que podiam ter sido. Muitos desenvolveram doenças cujas causas foram a amargura e ressentimento que carregavam como resultado dessa forma de viver».


Quem me dera ter mantido contacto com os meus amigos. 
«Muitas vezes as pessoas só se apercebem dos benefícios de ter velhos amigos quando estão perto da morte e já é impossível voltar a encontrá-los. (…) Muitos ficam profundamente amargurados por não terem dedicado às amizades o tempo e esforço que mereciam. Todos sentiam a falta dos amigos quando estavam às portas da morte».


Quem me dera ter-me permitido ser feliz.
«Muitos só perceberam no fim que a felicidade era uma escolha. Mantiveram-se presos a velhos padrões e hábitos antigos. (…) O medo da mudança fê-los passarem a vida a fingirem aos outros e a si mesmos serem felizes, quando, bem lá no fundo, tinham dificuldade em rir como deve ser».


Escolhe ser feliz. Tem um óptimo dia!



Regras Essenciais para uma Boa Amizade

Créditos fotográficos: Huu Hung Truong

"Os homens assemelham-se às crianças, que adquirem maus costumes quando mimadas; por isso, não se deve ser muito condescendente e amável com ninguém. Do mesmo modo como, via de regra, não se perderá um amigo por lhe negar um empréstimo, mas muito facilmente por lhe conceder, também não se perderá nenhum amigo por conta de um tratamento orgulhoso e um pouco negligente, mas amiúde em virtude de excessiva amabilidade e solicitude, que fazem com que ele se torne insuportável, o que então produz a ruptura. Mas é sobretudo o pensamento de que precisamos das pessoas que lhes é absolutamente insuportável: petulância e presunção são as consequências inevitáveis.

Em algumas, tal pensamento origina-se em certo grau já pelo facto de nos relacionarmos ou conversarmos frequentemente com elas de uma maneira confidencial; de imediato, pensarão que nós também devemos ter paciência com eles e tentarão ampliar os limites da polidez. Eis porque tão poucos indivíduos se prestam a uma convivência íntima; desse modo, temos de evitar qualquer familiaridade com naturezas de nível inferior. 
Contudo, se esse indivíduo imaginar que é mais necessário a nós do que nós a ele, terá como sensação imediata a impressão de que lhe roubamos algo. Tentará então vingar-se e reaver os seus pertences. O único modo de desenvolver a superioridade na convivência com os outros é não precisar deles de maneira alguma e fazê-los perceber isso. Consequentemente, é aconselhável fazer sentir de tempos em tempos a qualquer um, homem ou mulher, que podemos muito bem passar sem ele. Isso fortalece a amizade. 
Para a maioria das pessoas, não é prejudicial se, de vez em quando, adicionarmos uma pitada de desdém na nossa atitude para com elas. Atribuirão tanto mais valor à nossa amizade: Chi non estima vien stimato [Quem não estima é estimado], diz um fino ditado italiano. Se, todavia, alguém nos é de facto muito valioso, devemos ocultar-lhe essa conduta como se fosse um crime. Ora, semelhante atitude não é agradável, mas é verdadeira. Os cães quase não suportam uma amizade excessiva; os homens, menos ainda." 

Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'


Exposição FOTOsophia em Aveiro [3 a 26 Julho 2013]


Tens planos para os próximos dias? 
A partir de hoje e até ao dia 26 de Julho já podes visitar a exposição FOTOsophia - imagens de auto-conhecimento, na Casa Municipal da Juventude de Aveiro. 
Pode ser vista de 2ªF a 6ªF, no horário das 9h30-12h30 e 14h-18h.

Descobre-te a ti mesmo e vive uma experiência diferente!


Contactos:
Stelya Pereira
E-mail: fotosophiac@gmail.com

Local da exposição: 
Casa Municipal da Juventude
Morada: Rua Engº Silvério P. Silva, Vera Cruz, 3800-175 Aveiro
(Rua por detrás do Oita, perto do Hairtz)
Telefone: 234 406 522
Horário: 2ª a 6ª Feira, 09h30-12h30 e 14h-18h
E-mail: cmjuventude@cm-aveiro.pt
http://cmjuvaveiro.blogspot.pt/

Com o apoio de:
Nova Acrópole Aveiro
Endereço: Rua Tenente Resende 15, 3800-269 Aveiro
Telemóvel: 962 836 725

Encontra o rumo da tua vida



Onde te leva a estrada da tua vida? Qual é a estrela que te guia novamente para o rumo traçado quando te perdes nas dificuldades? O que te motiva a avançar? Qual o sentido da tua existência? Quem és tu? Eis algumas questões às quais deves procurar ter resposta em cada passo que dás, todos os dias. 
Se olhas demasiado perto de ti, perdes noção do horizonte e da profundidade. Deixas de ser uma expansão viva para te contraíres num corpo sem sonhos. Os buracos do caminho agigantam-se, as pedras parecem infindáveis, os sapatos rotos desmotivam-te... É preciso olhar para aquele ponto longínquo que nos atrai a alma e nos vivifica as esperanças para que possamos ter uma visão da composição artística que é a nossa paisagem de vida. Só assim conseguimos relativizar os diferentes elementos por ordem de grandeza e importância e ter consciência dos passos que se seguem; é saber de onde vimos, onde estamos e para onde vamos. Nesse momento passamos a apreciar a viagem, a ver a beleza de tudo quanto nos rodeia, e a utilidade daquilo que nos parecia mau e desnecessário. 
És um fio que percorre a vida, entrelaçando-se nas pérolas que encontra pelo caminho. Procura as pérolas. Vive as pérolas. Adiciona-as a ti. Vive com o fogo das estrelas no coração e exala a luz que te inunda, mesmo na mais escura das noites. 

O que podes dar de ti



"Se eu pudesse deixar algum presente a você, deixaria aceso o sentimento de amar a vida dos seres humanos. A consciência de aprender tudo o que foi ensinado pelo tempo fora. Lembraria os erros que foram cometidos para que não mais se repetissem. A capacidade de escolher novos rumos. Deixaria para você, se pudesse, o respeito daquilo que é indispensável. Além do pão, o trabalho. Além do trabalho, a acção. E, quando tudo mais faltasse, um segredo: o de buscar no interior de si mesmo a resposta e a força para encontrar a saída." 
Mahatma Gandhi


O medo da luz



"Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz."
Platão

O ser humano nunca deve fugir de si mesmo, da verdade ou da procura de saber ser mais e melhor. Até se poderá dizer mais: que o ser humano nunca deve deixar de querer Ser, pois essa é a sua finalidade. "Ser" é viver toda a sua própria potencialidade, é descobrir o que nos faz ser únicos, especiais, e ter a capacidade de colocar todos esses atributos cá para fora. É deixamos a máscara e revelarmo-nos ao mundo de maneira natural. Esta é no fundo a procura que todos encetamos desde o nascimento, e é essa vivência que nos fará realmente ser felizes. Tudo o resto é acessório, ainda que tenha também a sua importância para facilitar a manifestação do Ser. 
É natural ao indivíduo que este acenda, paulatinamente, a luz da sua consciência. E o que é a consciência? A palavra consciência pode decompor-se em duas outras: "com"+"ciência". Ciência, do latim scientia,  significa conhecimento. A consciência é então a faculdade que temos de aceder ao conhecimento. E que tipo de conhecimento é este? O conhecimento tem de abarcar tudo o que existe, caso contrário, seria um conhecimento parcial. Assim, existem dois  tipos de conhecimento que estão interligados: o interior e o exterior. O exterior é aquele que todos conhecemos e que é transmitido nas escolas, universidades, etc. e também pela experiência que cada um adquire da prática e aprendizagem diária no mundo físico. O conhecimento interior é aquele que nos permite ver quem somos, ver a verdade que jaz detrás das aparências do mundo externo, quais os nossos defeitos e virtudes, qual o sentido da vida, como sentir o que queremos sentir, pensar o que queremos pensar, porque agimos desta maneira e não de outra e quais as leis que regem estes mundos internos, o mental e o psicológico, aos quais geralmente damos pouca importância mas que na verdade, são a causa por detrás de muitas das nossas queixas e problemas. 
O conhecimento interior deve ser aplicado no mundo externo; o conhecimento externo deve dar-nos insights sobre leis internas. Tudo está relacionado. Simbolicamente, a consciência é representada por uma luz, aquela que ilumina os recantos escuros no nosso interior e exterior e nos leva a conhecer. 
Existem "homens-criança" que ainda têm medo do escuro e por isso não se aventuram nas descobertas do Ser, têm medo de conhecer-se, de lidar com as suas dores, com os seus defeitos, de desenvolver virtudes, têm medo de conhecer um rumo que os impele a ser melhores amanhã do que foram hoje, porque isso exige esforço e domínio. Preferem dedicar-se apenas às coisas simples da vida na ignorância das leis da mesma, e com isso sofrer mil vezes os mesmos tormentos e de falhar sempre nas mesmas provas, resultado da parca reflexão e da muito lenta e por vezes ausente mudança de hábitos, padrões emocionais e mentais que os poderia encaminhar para a felicidade. 
Mas existem também aqueles seres humanos que não têm medo da luz. Pelo contrário, procuram-na e entendem o valor que tem aquele ditado popular que diz: "Em terra de cego, quem tem um olho é rei." Esses, pouco a pouco vão alimentando um discernimento que os guia na escuridão dos tempos; facilmente identificam os buracos do caminho e os contornam. Por vezes também caem pois não são perfeitos; mas sabem o motivo pelo qual caíram nesse buraco e não relegam esse acontecimento a terceiros ou à injustiça do mundo. Não deixam de ter as suas próprias dores, no entanto, conseguem relativizá-las pois já não vêem apenas as sombras e a escuridão que os rodeava dantes; mas possuem agora um pouco de luz que os possibilita ver as formas, os volumes, a posição de cada coisa e a relação entre elas. Tão-pouco se centram no buraco em si, caindo numa espiral derrotista. Não se fixam no problema que por vezes insiste em persistir. Sabem bem que a única resolução para um buraco é enchê-lo. É buscar aquilo que falta, e por isso não se centram nele mas na qualidade oposta e a buscam activamente. Usam da resiliência e inteligência, fazem da vontade sua arma, e do amor o seu refúgio, e vão aumentando assim, com confiança, o trabalho consciente que levam nos seus dois mundos: interior e exterior. 
E tu, tens medo da luz?



A coragem não é a ausência de medo



"Aprendi que a coragem não é a ausência de medo, mas o triunfo sobre ele. 
O homem corajoso não é aquele que não sente medo, mas aquele que conquista esse medo."

Nelson Mandela


A Vida e o jogo




"Quando a criança cresceu e abandonou os seus jogos, quando durante anos se esforçou psíquicamente por agarrar as realidades da vida com a seriedade desejada, pode acontecer que um dia se encontre de novo numa disposição psíquica que volta a apagar esta oposição entre o jogo e a realidade. O homem adulto lembra-se da grande seriedade com que se entregava aos jogos infantis e acaba por comparar as suas ocupações por assim dizer graves com esses jogos dos tempos da infância: liberta-se então da opressão demasiado pesada da vida e conquista a fruição superior do humor."  
Sigmund Freud, in 'Ensaios de Psicanálise Aplicada'




Sê como um canal para a Vida


Créditos fotográficos: Kyle Thompson Photography


Deixa-te envolver pela Vida. Deixa-te trespassar. Não ofereças resistência. Não reajas... Age. Abraça aquilo com que te deparas, pois é um espelho onde te podes conhecer. Abandona as etiquetas mentais "bom" e "mau". Vê as coisas como são. Sem polaridades. Aceita-as. Abraça-as. Vive-as. Hoje e todos os dias. Vive intensamente dentro de todas as coisas. Sê como um filamento de lâmpada, por onde a corrente eléctrica da Vida passa e incandesce, espalhando Luz para os demais. 


O fruto da leitura




"Os leitores extraem dos livros, consoante o seu carácter, a exemplo da abelha ou da aranha que, do suco das flores retiram, uma o mel, a outra o veneno." 
Friedrich Wilhelm Nietzsche



Empreendedorismo e a filosofia do risco



Créditos fotográficos: Nils Eisfeld

"Alguns homens vêem as coisas como são, e perguntam: Por quê? Eu sonho com as coisas que nunca existiram e pergunto: "Por que não?"
George Bernard Shaw


O empreendedor é aquele indivíduo que toma as rédeas da sua própria vida e conhecendo as suas potencialidades e os seus recursos, dirige todas as suas acções, estratégias e habilidades e mobiliza recursos externos com vista a alcançar os seus objectivos, amando realmente o que faz. É sempre uma pessoa ousada, que nunca vive no passado, raramente no presente e que tem substancialmente a sua visão colocada no futuro.
Tem que ter domínio dos seus medos, já que abraça o risco, convivendo com ele e aprendendo com as falhas ao invés de se deixar desanimar por elas. Reveste-se de Capital Intelectual: conhecimento, experiência, especialização.
Nas qualidades pessoais de um empreendedor, destacam-se:
a) iniciativa;
b) visão;
c) coragem;
d) firmeza;
e) decisão;
f) atitude de respeito humano;
g) capacidade de organização e direção.
A estas qualidades juntam-se a perseverança, flexibilidade, adaptabilidade, criatividade, positividade, assertividade, foco, auto-estima, vontade própria.

Todos nós temos a nossa filosofia de vida. O empreendedor é aquele que tem uma filosofia de vida de risco. Move-se na vida aceitando riscos como apostas de um futuro mais brilhante, emocionante e recompensador. Não aceita a rotina vã ou o patamar seguro que não leva a mais desenvolvimento, mas a um estagnamento confortável. É um guerreiro que aceita batalhas com a convicção de que irá vencer e alcançar o seu sonho, pois acredita em si mesmo.
No fundo, todos nós somos à nossa medida, empreendedores. Todos temos esse potencial dentro de nós. O segredo está em conseguir trazer essa faceta para fora pela nossa própria vontade, ao invés de depender de alguma situação ou de alguém que nos motive e nos coloque um fogo de entusiasmo dentro do coração.  
Somos como toros de madeira, que, relegados à inutilidade, absorvem a humidade do ar e da terra,  dilatam e apodrecem na imensidão de uma floresta, desaparecendo sem deixar rasto. Mas o mesmo toro, arriscando-se no fogo por meio de uma vontade que o ateia, descobre assim que ao caminhar rumo à aparente destruição, dá origem a algo mágico: a luz e o calor de um fogo vertical, que com as suas chamas sobe sempre para o céu, procurando a inspiração nas estrelas.
Acredita em ti, põe-te à prova, faz, erra, aprende com o erro e volta a fazer, conhece-te a ti mesmo, atreve-te e domina os teus medos com um entusiasmo impulsionador.
Faz nascer em ti um empreendedor e vive sua filosofia: a do risco.


Repensar a vida

Créditos fotográficos: Firman Hananda Boedihardjo

"Sofremos muito com o pouco que nos falta e gozamos pouco o muito que temos." 
William Shakespeare



Preocupa-te apenas com o que depende de ti



"De tudo quanto existe, algumas coisas dependem de nós, outras não dependem de nós. De nós dependem a opinião, os apetites, os impulsos, a aversão e, numa palavra, cada uma das nossas acções. Não dependem de nós o corpo, os bens, a fama, o poder e, numa palavra, tudo o que não constitui uma acção nossa. (...) mais importante é saber se pertence à categoria das coisas que dependem de nós ou às que de nós não dependem. Então, se for das que não dependem de nós, tem bem pronta a resposta: «não é nada comigo». "

in Manual, de Epicteto

A propósito de hoje estar um dia chuvoso, trago-vos hoje esta reflexão.
A chuva, na nossa sociedade é sempre indesejada por muitos; é desconfortável ter que andar com guarda-chuva para todo o lado, quem usa óculos fica sempre com as lentes "pintadas" de pequenas gotas, os carros na rua ameaçam-nos ao passarem perigosamente perto de poças de água, os acidentes na estrada multiplicam-se, o céu cinzento de nuvens chuvosas convida a tristeza e melancolia... Enfim, muitos são os motivos para reagirmos com desânimo quando abrimos os estores de manhã e vemos mais um dia de chuva, e ficamos a desejar o regresso rápido do bom tempo.

No entanto, ao pensar nisto lembrei-me de um relato de uma amiga que foi há tempos passar umas férias na Escócia. Ficou muito surpresa pela atitude dos escoceses face à chuva. Não corriam apressados para fugir dela, nem se preocupavam muito em abrir rapidamente o guarda-chuva na rua e muitos nem sequer o usavam. Estavam habituados à chuva, ela fazia parte da sua realidade e não era apenas um elemento a repelir, a evitar, a maldizer. Os poucos escoceses que observaram o comportamento desta minha amiga portuguesa, apressada a abrir o guarda-chuva e a correr entre sítios para a evitar, também a estranharam de volta, possivelmente percebendo logo que seriam estrangeiros. E como já dizia Fernando Pessoa, "primeiro estranha-se, depois entranha-se", assim é também com os elementos da nossa vida que dizemos que nos incomodam, e que pensamos que mais valiam não estarem lá, como a chuva nos dias de Inverno. Por vezes o que nos incomoda mesmo é o nosso próprio incómodo face à situação, e não o objecto que dá forma à mesma. É essa resistência interior perante aquilo que apenas é, ou seja, que não é bom nem mau, apenas existe, que nos traz desconforto e até mesmo infelicidade. Afinal, que mal nos faz a chuva quando estamos plenos de vida e podemos usufruir dessa vida apesar da chuva? As crianças, que não desenvolveram ainda essa resistência interior, despreocupadas com as suas roupas ou cabelos, recebem a chuva como algo natural e até são capazes de a achar divertida.  
Mas há chuva a todos os níveis. Por vezes chove lá fora, mas outras vezes chove cá por dentro, quando o nosso céu emocional e mental está carregado e cinzento. No entanto, a vida continua sempre, e há uns que vivem na chuva maldizendo o céu que a oferece e tudo o que com ela está relacionado, mas há também quem viva na chuva entendendo que o que depende delas não é cessar a chuva e trazer o sol. O que depende delas é viver a vida apesar da chuva, não perdendo tempo ou gastando energias a maldizê-la ou a lamentar-se, é estar atento ao que está ao alcance, ao que se pode fazer, pensar, transformar, criar, transmitir, sonhar, amar. É uma questão de foco, de desapego das situações que nos desagradam para a identificação com a vida que nos permeia e com o que dela podemos retirar e dar também. Nisto descobrimos algo fantástico, já dito pelas tradições populares: "não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe". Tudo é cíclico e tem apenas uma importância e peso relativos, que não nos devem perturbar no nosso caminho.  
Epicteto foi um filósofo estóico que apesar de ter sido escravo, soube ser livre dentro de si próprio, sabendo viver e ser feliz apesar da "chuva" da sua condição. Para além disso, ainda nos legou raios de sol nos seus escritos, que podemos usar para iluminar os nossos dias, reflectindo e pondo em prática os seus ensinamentos, mesmo naqueles dias de chuva e de céu carregado. 
E tu, já fotosophaste hoje?


A vida como uma composição musical





"A vida é o que te acontece enquanto estás ocupado com outros planos." 
(John Lennon)


Como medes as tuas vitórias? Como crias a tua felicidade?
Certamente já observaste pessoas que, do teu ponto de vista, aparentam ter tudo para serem felizes e no entanto não o são, sentem sempre que lhes falta algo, que estão desfazadas dos seus objectivos, que ainda não chegaram onde queriam chegar, etc.
Por vezes acontece que podemos não estar alinhados connosco mesmos, com as nossas potencialidades, com aquilo que são as nossas capacidades inatas e o melhor que temos dentro de nós e assim passamos ao lado do nosso objectivo de vida e isso cria dor - esse alerta universal que nos avisa quando algo está errado. E ao perseguirmos objectivos de vida que não são a meta daquilo que trazemos em nós para desenvolver, equivocamo-nos e assim sentimo-nos infelizes e perdidos, e ainda que possamos estar a fazer coisas extraordinárias com a nossa vida e que outros até possam admirar, não as reconhecemos e por isso não as sentimos, nem vemos.

Um bom exemplo encontra-se no filme "Mr. Holland Opus" (1995), que se traduz por "A composição do Sr. Holland". Este conta a história de um professor de música cujo sonho era ser compositor, e que vai leccionar, um pouco contra a sua vontade, num liceu de uma pequena cidade. À procura da sua realização através da composição que lhe permitiria deixar a sua marca no mundo, e ter fama e riqueza, deixa invariavelmente à margem o seu filho surdo e a sua mulher, até que descobre a alegria de poder contagiar os seus alunos com o seu amor pela música e harmoniza a sua vida familiar, partilhando inclusivé a sua música com o filho, encontrando maneiras de a transmitir à comunidade surda. No entanto, não deixa de se sentir um derrotado, quando já entrando na sua velhice, se vê impedido de leccionar na escola devido aos cortes do estado e se apercebe de que ainda não conseguiu compor a sua obra musical.
Numa cena final comovente, acolhido numa festa-surpresa, Mr. Holland descobre que "a vida é o que te acontece enquanto estás ocupado com outros planos" ("life is what happens to you while your busy making other plans") e descobre que a sua composição, a qual ele pensava, com pesar, que nunca tinha conseguido concretizar, e sentindo-se por isso um falhanço, existia afinal sob outra forma: as notas e melodias da sua Opus eram afinal as pessoas que tocou e influenciou durante a sua vida, transformando em pessoas melhores.

De facto, muitas vezes procuramos plasmar os nossos sonhos e anseios de uma maneira tão específica que os confinamos apenas a uma determinada forma e impedimos esses sonhos de poderem ser canalizados na forma que está em perfeita sintonia com o canal que somos nós, e que tem as suas próprias características e energia própria. Por falharmos em perceber isto, depois desanimamos ao não vermos os frutos que imaginámos, mas talvez a solução seja apenas uma questão de perspectiva e realinhamento.
É necessário conhecer em primeiro lugar quais são os nossos sonhos, o que nos impulsiona e nos faz mover na vida. Ir ao mais alto que conseguirmos, não envolver esse sonho numa forma específica, mas atingir a Ideia que está por detrás da forma que nos vier à mente. Em segundo lugar é preciso conhecermo-nos a nós mesmos, para saber quais as ferramentas que temos em mão para construir esse sonho de forma concreta. Ao conhecermos as nossas potencialidades, traçamos a intercepção com a Ideia que move o sonho, assim poderemos encontrar a nossa maneira única de concretizá-lo.
Isso é o que nos trará a realização e o sentimento de que a nossa vida teve importância, que fizemos algo que deixou marca. É o que nos trará descanso no final dos nossos dias quando já só restam memórias para apaguizar as dores do corpo e as angústias da incapacidade de viver a juventude. É o que nos fará partir em paz com a certeza de uma vida bem vivida, cuja música ecoará sempre na orquestra afinada que é o Universo.

O lado B da crise


Créditos fotográficos: Vadim Trunov

"Não pretendemos que as coisas mudem, se sempre fazemos o mesmo. A crise é a melhor benção que pode ocorrer com as pessoas e países, porque a crise traz progressos. A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura. É na crise que nascem as invenções, os descobrimentos e as grandes estratégias. Quem supera a crise, supera-se a si mesmo sem ficar “superado”. Quem atribui à crise seus fracassos e penúrias, violenta seu próprio talento e respeita mais aos problemas do que às soluções. A verdadeira crise, é a crise da incompetência. O inconveniente das pessoas e dos países é a esperança de encontrar as saídas e soluções fáceis. Sem crise não há desafios, sem desafios, a vida é uma rotina, uma lenta agonia. Sem crise não há mérito. É na crise que se aflora o melhor de cada um. Falar de crise é promovê-la, e calar-se sobre ela é exaltar o conformismo. Em vez disso, trabalhemos duro. Acabemos de uma vez com a única crise ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar para superá-la."
Albert Einstein 



Uma velha história bem conhecida, a fábula da borboleta, ajuda a compreender a ideia que Einstein imortalizou neste texto. Fala acerca de uma borboleta, que como todas as borboletas antes de nascer, estava presa no seu casulo,  do qual só poderia sair despendendo esforço e tempo para rasgar a película que a envolvia. Mas esta borboleta particular teve uma história diferente. Foi encontrada por uma criança, que na sua inocência ao ver os tremendos esforços que a borboleta empreendia sem se conseguir libertar do seu casulo, a ajudou e rasgou o casulo por ela, libertando-a. Mas a borboleta não saiu a voar, como a Natureza pretendia; ao invés disso, caiu e apenas agitava as suas patinhas para a criança. Pouco tempo depois, morreu. Era necessário o esforço contínuo até romper o casulo para que a borboleta fortalecesse o seu corpo e as suas asas que lhe permitiriam voar.  
A palavra crise, deriva da palavra crisálida, que é o mesmo que casulo, de onde a borboleta só sai mediante esforço continuado. É dentro da crisálida que a borboleta sofre um processo de crescimento e diferenciação, e onde praticamente não se move durante todo o processo. Todos nós temos a nossa "crisálida": são aquelas situações de vida em que sentimos a crise que nos empurra a perceber quem somos, o que queremos e para onde vamos, a procurarmos soluções novas, atitudes diferentes, mentalidades mais evoluídas, hábitos mais salutares e que se destinam apenas a nós, e que aparecem sob a pena de, se não as aceitarmos e ultrapassarmos, ficarmos fracos e mirrados, esmorecendo caídos na terra dos nossos dias. Também existem crisálidas maiores, que contém lá dentro não apenas uma pessoa, mas um conjunto delas, assim temos a crise num casal, numa família, numa cidade, num país e até num planeta inteiro. A crise têm a tendência de nos paralizar. Ficamos inertes à espera de dias melhores, como a borboleta no interior do seu casulo, por causa do medo, das incertezas, da confusão mental, da ansiedade... mas a verdade é que é apenas quando a borboleta se põe em movimento e empreende activamente esforços no sentido de sair da sua crisálida que ela efectivamente ultrapassa a sua crise, ou melhor, esta etapa de vida que lhe proporcionou a passagem de um estado larvar a um estado em que supera os elementos e adquire uma nova capacidade de explorar os céus, atingir novas realidades e ver a terra de cima. 
Como a invejam as larvas ao observarem a sua irmã no alto! Mas um dia chegará também a sua vez, em que, tomadas pela crise da transmutação, poderão assim emergir como borboletas triunfantes. 
E tu, que esforços vais fazer para ultrapassares a tua crise? 






Em que consiste a verdadeira ajuda


"Antes de dares comida a um mendigo, dá-lhe uma vara e ensina-lhe a pescar." 
Provérbio Chinês

Muitas vezes, principalmente em relação a aqueles que mais amamos, temos a tendência de querer facilitar as coisas para evitar o seu sofrimento e levá-los ao colo pela vida fora. No entanto, é importante percebermos que uma pessoa só se sentirá feliz e conseguirá ultrapassar qualquer dificuldade que lhe surja quando se sentir autónoma, segura de si própria e estiver a construir a cada dia os seus recursos pessoais que lhe permitirão vencer na vida. Assim, podemos e devemos ajudar o próximo, mas não nos esqueçamos jamais de que fazemos um maior bem em dar-lhe as condições para se ajudar a si mesmo, não tendo assim que depender de algo exterior que pode ou não estar disponível, ou sentir-se limitado em si mesmo e na capacidade do outro que o ajuda. Apontar no outro as suas potencialidades, ajudar no seu desenvolvimento, dar-lhe condições de vencer os seus medos, inseguranças, ensinar-lhe algo que possa trazer mais-valias, partilhar experiências de vida, dar o que quer que precise mas fazendo com que sinta que o mereceu pelas suas qualidades e não que foi alvo de uma simples esmola... São algumas das muitas maneiras de se levar um "mendigo" a ser um pescador feliz. Só é preciso que tenhamos sempre presente a diferença entre ajudar realmente alguém e em fazer esse alguém depender das ajudas e generosidade de outros.


Ri-te, pela tua saúde!



"É saudável rir das coisas mais sinistras da vida, inclusive da morte. O riso é um tónico, um alívio, uma pausa que permite atenuar a dor."
Charles Chaplin

Muitas vezes na nossa vida não nos apetece rir, ou tão-pouco sorrir. Permanecemos macambúzios, tristes, fechados, alheados do mundo, zangados ou simplesmente indiferentes. O rir ou esboçar um sorriso, deve ser um exercício a que nos devemos propor de forma constante e persistente, para nosso bem e dos que nos rodeiam, mesmo quando a dor nos atinge ou o problema nos surge. Torna-se num hábito, como muitos outros que também adquirimos com a prática, e como tal, à medida que se vai tornando cada vez mais automático e menos forçado, resulta mais fácil de acontecer e relativamente sem esforço. Dos benefícios para a saúde, muito temos ouvido falar; fala-se inclusive numa terapia do riso, onde se leva a cabo o exercício de expressar a boa disposição rindo. Mas para além da saúde, o hábito de conseguirmos rir no nosso dia-a-dia, abre-nos portas que influem na nossa felicidade: alteramos a nossa disposição mental para ver o melhor e mais positivo que existe no nosso entorno e nas situações por que passamos, dando-nos assim a capacidade de relativizar e evitar cair num prejudicial egocentrismo; quebramos a má disposição dos outros, propagando alegria, o que resulta geralmente numa maior afabilidade destes para connosco, etc...

Rir ou sorrir é uma atitude de generosidade para com o mundo e para connosco mesmos. Capacita-nos de poupar o outro das nossas dores, pois doamos felicidade e não angústia. Dota-nos de uma predisposição interior que forma uma ponte para a obtenção de soluções (uma vez que estamos mais tranquilos e relaxados), para a resistência às adversidades e para a estabilidade emocional.
Rir e fazer rir é apontar o caricato, o inusitado, o outro lado das questões, a luz ao fundo do túnel. É encontrar a união que toca a todos e partilhar a boa disposição universal. Não é ofender, não é gozar, não é apenas soltar indiscriminadamente energia em excesso para dizer e ouvir coisas parvas só porque faz falta aparentar que se é divertido ou feliz. Não é uma tentativa de nos enganarmos a nós mesmos, nem de sermos falsos ao tentarmos rir quando não nos apetece, sem perceber com que sentido o fazemos. Esse é o rir superficial que não permanece como boa disposição durante muito tempo, porque se esgota no estímulo que o originou. O rir profundo é aquele que vem do nosso querer, que tem sempre uma finalidade, uma visão mais ampla das coisas, e que nos leva a algum lugar que de outra forma não poderíamos ir. É preciso rir e saber fazer rir para conseguir por vezes transmitir uma mensagem mais profunda, no momento necessário, sem correr o risco de sensibilizar os outros nos seus dogmas ou preconceitos. É sabermos que a boa disposição sempre existe no nosso interior, como o sol que existe sempre no céu. Saber rir é ter a capacidade de afastar as nuvens negras desse céu e fazer brilhar de novo a nossa estrela para o mundo.
Já te riste verdadeiramente hoje? Reencontra esse teu lado luminoso e generoso. Seja na companhia de alguém, ou sozinho em casa a fazer caretas a um espelho. Mas ri-te. Cultiva esse hábito precioso que nos acompanha desde sempre.


Aquele momento em que paras de fugir de ti próprio e te encontras...




Há uma panóplia de coisas que as pessoas fazem para fugirem ao acto da resolução dos seus próprios problemas pessoais: excesso de desporto, matarem-se a trabalhar, gastarem imenso dinheiro em coisas fúteis, rodearem-se de amigos/amiguinhos/puxa-sacos e afins que lhes elevam a auto-estima, recorrerem às drogas, bebida, sexo e violência, terem hobbies completamente inúteis que causam dependência e pouca actividade cerebral, envolvimento nas redes sociais em excesso, envolvimentos amorosos que são mais fogo de palha e manifestação de carência do que outra coisa, preocuparem-se demasiado com os outros e com a sua própria imagem, iludirem-se ao pensar que nem sequer têm problemas nenhuns, depender dos outros para tudo, ficar grudado na TV a toda a hora, procurarem todo o tipo de coisas que lhes faça sentir "vivos", azucrinar a cabeça dos outros só porque sim, criticar tudo e todos, culpar todos menos a si próprios, fugir de pensar, analisar, perceber porquês e procurar respostas porque não se querem "deprimir" com questões existenciais... e a lista continua... 
Estas coisas não resolvem absolutamente nada, só te fazem varrer a sujeira para debaixo do tapete. Mais dia, menos dia, ela não vai caber mais lá debaixo... e... logo sai tudo cá para fora de rajada. E se pensas que até lá chegar ainda demora muito... o tempo é relativo e passa muito rápido, principalmente depois dos 25!
Então que fazer? Não vivas a vida a fugir de ti próprio porque... guess what? Não consegues. Enfrenta-te, descobre-te, questiona-te, pesquisa, põe em prática, erra, acerta, aprende, relativiza, muda o que tem que mudar, mantém o que tens de manter, liga-te ao mundo em profundidade, sente, cheira, toca, vê com olhos de ver, plenamente consciente dos estímulos dos sentidos, pensa bons pensamentos, emociona-te com coisas belas, retém tudo em ti, interliga experiências, ama, ajuda o próximo, liberta-te do egoísmo que te prende, manifesta toda a tua vontade e coragem, esforça-te e liberta a tua imaginação para sonhares com o futuro que te é possível construir e acredita nele. Sente cada inspiração de ar puro, cada garfada de comida, cada olhar cruzado, cada som, cada ideia, cada paisagem e cada pormenor, cada pessoa que por ti passa na vida, e ri-te das adversidades como se de um jogo se tratasse, ao mesmo tempo que te lanças a elas com vontade de vencer e conquistar. E se perderes uma batalha, podes ainda assim vencer a guerra. Aprende a escolher as tuas batalhas. 
Identifica os teus problemas e resolve-os com inteligência e persistência um a um. Não tenhas medo da dor, habitua-te a ela para a suportares melhor e dá-lhe o devido valor quando te visita, pois ela te ensina o bem, afastando-te do mal. Trata a vida com respeito e propósito, com responsabilidade e sentimento de missão. Descobre o que andas aqui a fazer, quem és, qual o teu papel no mundo e para onde vais. Traça o teu caminho, ainda que possas duvidar ao início dele. Podes sempre vir a alterá-lo depois, o importante é dares passos e aprenderes com eles. Vive! Não deixes que a vida se torne morta para ti, como um filme de classe B a que ninguém quer assistir ou pouca atenção lhe dá. Não te desligues da vida fazendo uma fuga para a frente em ciclos de buscas intermináveis e repetitivas de coisas que não te preenchem o vazio que sentes quando ficas só e o coração pesa, apertado e confuso. 
Viver ou sentir-se vivo não é ter um sentimento de euforia ou de actividade constante para distração dos males. É estar presente em todos os pormenores da nossa vida, desperto, atento, activo, agindo em movimentos concertados com um rumo que nos leva a sentir a felicidade de construirmos algo maior do que nós mesmos com as nossas próprias mãos. É sentir que temos um papel a cumprir neste palco que é o mundo e o representarmos com toda a nossa dedicação e esforço para que seja o mais perfeito possível e nos sentirmos assim realizados. 
Aprende a viver!... aqui e agora!

O cerimonial do Amor


Créditos fotográficos: Elena Karneeva

"Se não houver esperanças de que o teu amor seja recebido, o que tens a fazer é não o declarar. Poderá desenvolver-se em ti, num ambiente de silêncio. Esse amor proporciona-te então uma direcção que permite aproximares-te, afastares-te, entrares, saíres, encontrares, perderes. Porque tu és aquele que tem de viver. E não há vida se nenhum deus te criou linhas de força. 
Se o teu amor não é recebido, se ele se transforma em súplica vã como recompensa da tua fidelidade, se não tens coração para te calares, nessa altura vai ter com um médico para ele te curar. É bom não confundir o amor com a escravatura do coração. O amor que pede é belo, mas aquele que suplica é amor de criado.
Se o teu amor esbarra com o absoluto das coisas, se por exemplo tem de franquear a impenetrável parede de um mosteiro ou do exílio, agradece a Deus que ela por hipótese retribua o teu amor, embora na aparência se mostre surda e cega. Há uma lamparina acesa para ti neste mundo. Pouco me importa que tu não possas servir-te dela. Aquele que morre no deserto tem a riqueza de uma casa longínqua, embora morra.
Se eu construir almas grandes e escolher a mais perfeita para a rodear de silêncio, ficarás com a impressão de que ninguém recebe nada com isso. E, no entanto, ela enobrece todo o meu império. Quem quer que passa ao longe, prosterna-se. E nascem os sinais e os milagres.
Não importa que o amor que alguém nutre por ti seja um amor inútil. Desde que tu lhe correspondas, caminharás na luz. Grande é a oração à qual só responde o silêncio; basta que o deus exista.
Se o teu amor é aceite e há braços que se abrem para ti, então pede a Deus que salve esse amor de apodrecer. Eu temo pelos corações cumulados."
Antoine de Saint-Exupéry, in "Cidadela"