O reflexo do relâmpago





Na obscuridade da noite, senti o ar carregado.
O cheiro a terra envolvia, e as nuvens acima pareciam congregar-se para uma reunião dos deuses. A princípio caíram umas tímidas gotas. E logo cessaram. Uns instantes de silêncio escuro anunciaram o intenso clarão que subitamente surgia, rasgando o céu aberto, esventrando ouvidos com o seu estrondo azul.
Parei para ver.
As nuvens beijavam violentamente o solo, que jazia sereno. Teias velozes percorriam a extensão do céu, iluminando o negrume que me envolvia como um manto profundo. O meu coração, acelerado, expandia-se ao som de cada trovão e vibrava alegremente. 
A noite quente adensou-se.
Os passos apressados na calçada silenciavam-se. Definhavam de volume, assim como o canto das folhas nas árvores e o lamento do vento. A voz do trovão tudo preenchia e o meu entorno tornou-se distante. Absorta, entreguei-me ao fulgor ensurdecedor dos relâmpagos e abracei o medo mudo da morte e a paixão cega de viver. 
A centelha resplandescente que habita em mim pedia-o.
Ela queria percorrer o céu dos pensamentos, as planícies de veludo cinzento dos sonhos, e sair das nuvens chorosas das emoções para beijar o chão húmido da vida. Desejava libertar o seu poder imenso e dar luz na escuridão medonha da noite. Queria abafar todos os burburinhos superficiais e inúteis com o seu som imponente, arrebatando grandiosamente o coração. 
Olhei o horizonte e mergulhei no infinito.
Perdi os minutos e os minutos roubaram horas. Subitamente, senti uma calma enternecedora e permaneci, por momentos, no berço da Vida. Pouco a pouco, voltei novamente a ouvir ao longe passos apressados, o canto das folhas e o lamento do vento. Um candeeiro ressuscitava e iluminava a minha face. 
A trovoada findava.


Tem o hábito de fantasiar?

Parece-te um urso polar?

Uma das (muitas) raízes dos nossos males é a fantasia. 
E o que é a fantasia?
Fantasia não é o mesmo que Imaginação. A imaginação obedece a um impulso de vontade sobre a mente: nós controlamos as imagens que ela despoleta e as levamos ao fim que queremos. 
Neste ponto é necessário compreender que querer e desejar também não são a mesma coisa. Como exemplo, posso desejar ficar na cama a dormir de manhã (e agora de Inverno, que bem nos vai saber!), mas no fundo o que queria mesmo era levantar-me e fazer do meu dia produtivo, o que me irá fazer sentir mais feliz e satisfeita comigo mesma - ainda que seja só a longo prazo - do que ceder aqui e agora à preguiça, ao satisfazer de um desejo momentâneo de conforto, para depois ter problemas por chegar atrasada, por ir a correr e esquecer-me de algo importante, ou apanhar trânsito e ficar a manhã toda irritada quando podia ter evitado isso ao sair com mais antecedência, ou até ter algum acidente. 
A fantasia surge quando a mente perde-se ao sabor dos desejos: as imagens mentais não são controladas, as emoções também não e os actos são assim influenciados pelas mesmas. Muitas vezes surgem repetidas vezes, em loops circulares que drenam a nossa energia e fazem-nos até sentir mentalmente cansados, espantando-nos depois porque dizemos que "eu até nem fiz nada para estar assim tão cansado". A fantasia pode inclusivamente degenerar em dimensões patológicas, como sabemos pela psiquiatria. 
O magnífico trabalho de Walt Disney é um exemplo de uma imaginação fabulosa. As suas obras são recheadas de valores morais, lições e simbolismo, conseguindo assim com as suas imagens transmitir bons ideais e belos sentimentos a várias gerações de pessoas. 
No entanto, a todo o devaneio de querer algo que nos satisfaz apenas os desejos, que deixamos correr na nossa mente ou pelas nossas emoções sem rédea alguma, a esse impulso, chamamos de fantasia.
Sobre este tema deixo-vos aqui um exercício que era feito aos aspirantes na escola Pitagórica (do filósofo Pitágoras), que, depois de terem já passado por provas que a boa maioria de nós provavelmente não seria capaz de passar, sujeitavam-se a diversas questões. 
Consistia na pergunta:

O que vês aqui?


Responde e põe-te à prova! 

Vá lá, tenta, não passes logo à resposta! :)

Este teste consistia em distinguir os alunos que se deixavam dominar pela fantasia, daqueles que, tendo mão das suas emoções e da sua mente, conseguiam assim ver a realidade sem filtros e sem "fazer filmes". A resposta mais comum a este teste é "um triângulo", no entanto, a resposta correcta é "três pontos". Esta última é o que realmente existe, a primeira é o que a mente fabrica. A nossa mente leva-nos por vezes a ver coisas que na realidade não existem pois ela está optimizada para ver padrões, para descodificar significados, etc., tudo para tornar a nossa existência física o mais automatizada possível para que possamos ter o tempo e a disponibilidade para exercitar outras faculdades mais características do ser humano e menos sobrevivencialistas. No entanto, se a mente não for uma ferramenta que dominamos, pode muito bem destronar-nos e passar ela a reinar em todo o tempo. Está aí a origem de muitos dos nossos males. É assim que passamos a entender coisas que os outros na realidade não disseram, vemos coisas onde na realidade não existem, criamos espectativas irreais porque criámos uma fantasia em torno de algo e antecipamos coisas terríveis antes de acontecerem como se fossem uma inevitabilidade matemática, mas que se analisadas, veríamos que não há assim tanta razão quanto isso para tais convicções.

Por isso, há que travar a fantasia logo no seu início, arrancar essas ervas daninhas da mente antes que façam estrago ao crescer descontroladamente. Não deixar a mente divagar sem rumo, no ócio, é um bom método. Focar a mente no útil, no bom e no belo. A erva daninha sem os cuidados da água fresca não se aguenta por muito tempo e cedo morre. Cultivar a imaginação faz-se ao fixar as imagens e pensamentos que realmente queremos ter, de forma constante e regular no tempo, com um esforço de vontade, afastando tudo o resto. É o que se faz nas meditações, que é uma forma de higienização e disciplina da mente, para que ela possa ser uma ferramenta útil e não um empecilho. Ao início pode ser difícil fazê-lo porque a mente está habituada a fazer o que quer e como quer. E como uma criancinha com birra, vai chorar e dar luta, até chega a fazer chantagem e tentar enrodilhar-nos em armadilhas para nos fazer desistir do que estamos a tentar fazer. Afinal, estamos a invadir o terreno da mente e a dizer-lhe que a partir de agora, quem governa somos nós. Claro que isso não será obtido muito facilmente, como acontece com todos os hábitos enraizados que tentamos mudar. É tentar esvaziar a mente ou concentrá-la em algo específico que não se deve alterar (de forma, cor, posição, etc.) sem querermos e logo lá vêm os pensamentos todos relacionados com os nossos problemas, preocupações, etc, a distrair-nos. Indica falta de capacidade de concentração. Mas há medida em que se persiste e treina, vai sendo mais fácil, e após algum tempo percebemos claramente a diferença entre uma mente que começamos a dominar e a dirigir e uma mente que nos domina a nós e nos cria impulsos aos quais nós cegamente obedecemos, trazendo-nos por vezes consequências desagradáveis.
Deixo-vos aqui estas pequenas dicas para começarem a reparar mais no que se passa na vossa cabeça e a ganharem mais controle sobre esse mundo interior.
Assim se educa a mente, e uma mente sã, é um bom passo para seres um ser humano melhor e mais feliz.

E tu, já fotosophaste hoje? 





Escrita criativa




Distraí-me.
A minha mente, como uma bússola, aponta sempre para ti.
Perdi-me nos pensamentos que me orientam por entre os trilhos da memória. Perdi-me para te encontrar. Jazes nas brumas, nos lençóis do tempo, no espreguiçar de um suspiro profundo.
No meio deste bosque de ilusão procuro-te, recordando sonhos perdidos, velhos fantasmas que perseguem a sombra dos meus dias, num arrebatar estonteante por entre as ondas encrespadas que me ameaçam ao longe.
Navego estas lágrimas salgadas que já não mais tocam o meu rosto lívido.
Sopra um vento de cetim e as folhas do meu pensamento escrevem novos versos. A Primavera rompe neste prado sombrio e pincela, aqui e ali, alegria em cores vivas.
Agora, não és mais que cinza frágil rodopiando num lugar longínquo. Esqueci-te.
E a minha bússola, finalmente, encontra um novo Norte.

O que é a felicidade?




"A felicidade é quando o que pensas, o que dizes e o que fazes estão em harmonia."

Mahatma Gandhi



A única busca da nossa vida é esta: sermos felizes. E sermos felizes vai muitas vezes contra as nossas aspirações e expectativas. Por vezes, encontramo-nos num ponto em que obtemos o que sempre desejámos, depois de muito tempo de olhos postos nesse horizonte, e tristemente, quando lá chegamos, descobrimos que a sensação de felicidade não dura eternamente. Voltamos a sentir um vazio qualquer, e novamente, outro desejo por cumprir nos leva para outra rota e à infelicidade associada à insatisfação desse novo desejo que surge. Assim vamos vivendo a vida numa ondulação sinusoidal que nos transporta a uma dualidade sem fim, entre extremos de maior ou menor amplitude. O pior disto tudo é que esta ondulação torna-se viciante: as experiências necessárias para obter a mesma sensação, tornam-se ao longo do tempo mais exigentes e duram cada vez menos, levando à procura incessante de novas "felicidades" que se esfumam com o vento.

A felicidade não pode ser então algo que se obtém apenas num ponto espácio-temporal definido. A esse sentimento pontual que não perdura poderíamos chamar de satisfação, contentamento, alegria, mas certamente não de felicidade, aquele estado interior que não comporta um padrão de vício.

Caímos muitas vezes no erro de pensar que estamos felizes quando tudo está bem, quando temos tudo o queremos, quando estamos preenchidos e satisfeitos em todas as nossas necessidades. Isto não é verdade, e constitui uma falsa premissa que nos afasta da verdadeira felicidade, sem que nós sequer o suspeitemos. Porque veja-se: somos capazes de sentir felicidade quando nos sacrificamos por alguém que amamos, apenas por fazermos essa pessoa feliz. Somos capazes de ter problemas, mas ao mesmo tempo, sorrir e ajudar quem está ao nosso lado, e curiosamente, todas as nossas dores deixam temporariamente de existir para dar lugar à felicidade de dar o que o outro precisa.

A felicidade é independente das circunstâncias, e como tal, precisamos de aprender a vivê-la em todas as situações. Para isso, temos que reestruturar e harmonizar todo o nosso ser, a começar pela nossa mente, pois pelos nossos pensamentos surgem emoções associadas (e vice-versa), que por sua vez se ligam a situações concretas e com suficiente hábito, passam a funcionar como mecanismos automáticos, podendo afastar-nos da nossa felicidade ou aproximar-nos consoante esse hábito seja benéfico ou não.

Reconhecer e alterar a polaridade dos nossos padrões negativos mentais e emocionais, aproxima-nos da felicidade. Para os reconhecer é imprescindível ter o comando de uma das nossas ferramentas: a atenção. Ela é fundamental, já que é pelo exercício da atenção que nos apercebemos do que estamos a pensar neste exato momento, que emoção se despoletou em nós em dada situação, qual foi a reacção que provocou em nós (muitas vezes até impulsivamente), e quais foram as consequências dessa cadeia de reacções das quais nós raramente temos consciência. 

É de ter em atenção que a atenção, se não for uma ferramenta ao nosso serviço, pode como tudo, virar-se contra nós. Aquilo a que cientificamente se chama "cegueira atencional", deve funcionar para nós como a maior motivação para cultivarmos a atenção naquilo em que nos queremos mesmo focar. Estes termos designam o que acontece quando nos focamos totalmente em algo: toda a realidade fora do foco da atenção é ignorada, mesmo quando são coisas tão berrantes que noutra situação detectariamos imediatamente. Por isso, se mantivermos uma atenção nas coisas que na verdade não interessam à nossa felicidade, todos os elementos que ao nosso redor poderiam contribuir para ela são pura e simplesmente ignorados e descartados, já que estamos cegos para este mundo que se situa para além dos limites do nosso foco.

Por isso é que a atenção correcta é o 7º passo do Nobre Caminho Óctuplo de Buda - o caminho que conduz à cessação do sofrimento. Este passo consiste em ter a perfeita consciência, pela atenção treinada, de todas as nossas acções, emoções, pensamentos, o que falamos e como falamos; é ver a verdadeira natureza por detrás de todas essas coisas e poder assim escolher a harmonia, o que nos traz a verdadeira felicidade.