Vingança, filha da ignorância



Créditos fotográficos: Tuhin

"É muito comum escutarmos que tal pessoa tem o gênio forte, porque não leva "desaforo para casa". 
Ou então, que se nosso "orgulho" for ferido, devemos devolver o insulto com a mesma intensidade.  
Não agir desta forma é visto como uma covardia, uma fraqueza, falta de personalidade.  
Tomou-se como "ponto de honra" a necessidade de retribuir-se o mal com o mal. O resultado é que a cada dia aumenta a violência em todos os setores. Não percebemos, mas contribuímos diariamente para que isso se propague. 
Se analisarmos nosso cotidiano, veremos que tanto em nossa casa, no trabalho e até no lazer nos melindramos por qualquer discordância de ponto de vista. Também não deixamos que a opinião que emitimos seja contrariada; que nossos desejos, às vezes absurdos e egoístas, sejam ignorados.  
Ai daquele que se opuser às nossas vontades! Mesmo que seja só em pensamento, passamos a desejar que aquela pessoa passe por poucas e boas. Sentimos uma estranha satisfação quando alguém que não gostamos ou nos desentendemos sofre dificuldade. 
Só isso já demonstra o que realmente temos dentro de nós: egoísmo.  
Há casos, então, em que a vingança se torna patente. É o que acontece quando tomamos conhecimento de crimes hediondos. O primeiro sentimento é de desejarmos que o indivíduo sofra na própria carne a dor que fez os outros passarem. Então, passamos a ser cúmplices da violência, incentivando-a inconscientemente.  
Com isso, no quê nos diferenciamos dos animais?  
A vontade de ver a justiça sendo feita muitas vezes nos torna injustos. Isso porque a visão da realidade que nos cerca pode ser distorcida por uma série de fatos, que vão desde o desconhecimento dos motivos do que está ocorrendo até a manipulação de informações.  
Desencorajar a vingança não significa ser conivente com o mal. Pelo contrário, mostra a necessidade de combatermos a maldade com razão e não com o ódio e a emoção que cegam e destroem.  
Matthieu Ricard