Just thinking... about thoughts.



(Surreal photography - Unknown author)


Thoughts. They're just thoughts, right? I mean, it’s not like I’m going to be arrested or convicted in a court of law for having just some thoughts. Because thoughts aren’t tangible, people can’t see them, they don’t exist outside of our heads. Right??
Well, not quite. A thought can be VERY real, if you think that every action is born with a thought, unless your crazy. They make up our world as we see it through our ideas, beliefs, and mental schemes. There is nothing that you do that doesn’t have a thought behind it. Even if you don’t know that you’re thinking. The mind never stops, not even in our sleep. So, an underlying bad (or good) thought can influence you according to its nature, and even without you knowing, runs in your unconscient mind, like a broken code embedded in your inner “software”. Negative thoughts lead to actions that causes, sooner or later, troubles and sufferings that appear apparently “out of the blue”. And then you wonder why.

So - thoughts. Maybe they’re not JUST thoughts. Maybe they are the doorway (or one of them) to living the life that you really want to live, because when you acquire the hability to think what you REALLY want to think, you influence also your emotions (because emotions are always in direct relation to what and how we think about things).
And what do you really want to think? Let’s see. What do you want to do? How do you want to feel? Everybody wants to be happy, right? So, the thoughts that give you that are those that influences you for the best and towards what is the right thing to do in every situation.
This leads us to another question. What is “the best”? How do we know it? Well, you can learn from your mistakes so you don’t repeat them, but this method requires a lot of pain. Let’s think something else. You can learn from those who have been through that pain, and came to some conclusion about it. In this sense, every philosopher is your friend, even if he isn’t formally named as such. Because any person that asks for the truth, and tries to reach it, is a philosopher. But, after you came in contact with what they say about things, you need to practice. Take it to your own life, and live it. Because thoughts are meant to became actions, so you must act.
This is how you will change your life. Through the practice of knowledge that brings you the wisdom to live life as you should, so you can be TRULLY happy.

So, just think it over. Take care of your thoughts. Are you really in control of your own mind? Or have you been overrided by your mind, spinning around without a steady course, in spite of the consequences?

Thoughts - they’re NOT just thoughts. They’re a part of you that you need to master – or they will master you. 



Por vezes o que chamas de azar é mesmo a tua sorte







"Às vezes, não conseguir o que você quer é uma tremenda sorte."

Dalai Lama



Bom dia! 
Saber querer o que se deve querer, aquilo que é de facto melhor para nós e não o que satisfaz apenas o nosso ego, desejos ou vícios, muitas vezes sob um disfarce de benefício a curto prazo, é um triunfo. 
Querer é poder, no entanto, há - felizmente - casos em que nos é trancado o acesso ao que desejamos. 

Vejam sempre o outro lado da moeda. Aproveitem e dêem valor à misericórdia da Vida, que nos quer poupar a mais dores do que aquelas que nos são justamente devidas, pelos erros que cometemos aqui e ali. As dores "justamente devidas" que temos que passar, são aquelas que acontecem para nosso próprio bem, isto é, para nos proporcionar o crescimento e um evoluir de consciência que muitas vezes só advém da experiência e da dor que nos força a ver e a fazer as coisas de modo diferente. Ao serem bem ultrapassadas, essas dores, vemos que saímos sempre do outro lado desse túnel escuro e angustiante mais fortes e seguros. Assim é como o comum ser humano aprende na vida. 

Por vezes teimamos em querer abrir portas fechadas, em querer seguir por caminhos de ilusão que apenas têm espinhos e repetidos buracos negros, em insistimos em pôr na mente ideias que não nos trazem nada de bom e que na maior parte das vezes fazem mesmo é mal, em cultivarmos emoções que apenas nos atraem situações e pessoas erradas e tudo isto nos traz, mais cedo ou mais tarde, sofrimento, que por vezes nos parece que vem injustamente, porque parece vir "do nada", sem nos apercebermos que a causa de tudo isso somos nós e a nossa insistente vontade em trilhar o caminho da dor.

Demoremo-nos um momento em perceber a tremenda sorte que pode ser essa porta fechada - a que desesperadamente teimamos em abrir - que ao não ceder à nossa insistência, não nos revela também depois uma realidade diferente e mais dura do que a que esperávamos, e da qual talvez teriamos posterior dificuldade em fugir.

Sintamos a alegria de não pisar aquele caminho que nos parece de ouro e pedras preciosas mas que depois se iria revelar fútil, estéril e cheio de dificuldades vãs, que não levam a lado nenhum, e nem traria sentido à nossa vida.
Tentemos perceber a sorte que é podermos impedir todas as "vontades" impulsivas ou tolas, mas que na altura nos parecem sábias e necessárias, que vêm sempre primeiro na forma de pensamentos, depois emoções e finalmente tornam actos, de se manifestarem quando querem, de as podermos dominar seja no nosso mundo interior ou exterior, sob pena de darmos asas ao pior de nós, de sofrermos com isso e fazermos sofrer também os outros, de quebrar coisas que não mais se consertam por mais que choremos, de entrarmos em espirais negativas que nos filtram os olhos com uma tela negra e fatalista, de não vivermos nem desenvolvermos o melhor de nós e por consequência, apenas atrairmos o pior dos outros e do mundo.

Percebamos a sorte que são as dificuldades que por vezes passamos e que nos dizem: "não é por aí" ou "não estás a ver bem as coisas, redefine os teus valores, as tuas prioridades de vida", "estás iludido pelas aparências, vê o que está oculto", ou simplesmente "precisas de ultrapassar isto para seres mais forte, porque sendo mais forte serás mais feliz".

A Vida não é cega nem ao acaso. É uma engrenagem dinâmica que tudo move num sentido, num universo ou Unus+Versus. É importante perceber a origem e o significado desta palavra. Em latim, Unus: um, no sentido de tudo num só, ou unidade + Versus: rotação, transformação, rumo - o que resulta em: "tudo transformado como um só ou num só rumo/sentido". Sentido esse que só iremos desvendar à medida que vamos percebendo as coisas como são (e não como as vemos por detrás de todos os nossos filtros pessoais), à medida que nos vamos conhecendo cada vez melhor a nós (e assim começar a ter mão nas estruturas psico-mentais que nos fazem querer o que na realidade não é o melhor para nós) e por consequência conhecer melhor o outro (o que nos faz ser mais tolerantes e capazes de ajudar realmente o próximo - por vemos que o outro não é na realidade diferente de nós nos pontos fundamentais que constituem a essência de um ser humano) e em último instante, conhecer as engrenagens do mundo, do universo, de tudo o que existe (o que nos permite dar um sentido, um rumo à nossa vida; construir um eixo que guie todos os nossos actos a um fim que nos preencha aquele vazio interior que muitos sentem).

Porque está tudo inteligado. 
E talvez seja por isso que estás a ler isto aqui e agora. Porque a Vida encontra sempre um modo de falar contigo. Com todos nós. Nem sempre é de forma tão directa como este texto. Às vezes são pequenos sinais que nos passam ao lado, porque vamos distraídos a olhar para a aparência das coisas, e assim insistimos em ignorar, ignorar, ignorar... até ao dia em que não podemos ignorar mais pois a Vida vai aumentando o volume com que nos grita aos ouvidos, até que decidamos ouvi-la. Depois vem uma doença, uma separação, um despedimento, uma crise de identidade, uma pessoa que morre... foi a Vida que teve que gritar mais alto para nos obrigar a parar e estar num estado mais receptivo a ouvir.

E mesmo com todas as dores e desgraças, já viste a sorte que é teres uma Vida, uma verdadeira Mãe Natureza, que grita contigo, que se preocupa contigo, para que faças o que realmente te leva a ser feliz?... Uma crise não é mais do que a Vida a gritar contigo, a dar-te dores para que finalmente mudes de sentido, para que unas todas as rotas distintas que tens em cada campo da tua vida em uma só rota, com uma só direcção, para que deixes os velhos modos de ser que te levam inconscientemente a campos de espinhos e buracos, para que possas a partir desse momento começar a encontrar a tua felicidade.



O problema da existência de Deus



"Os argumentos relativos ao problema da existência de Deus têm sido viciados, quando positivos, pela circunstância de frequentemente se querer demonstrar, não a simples existência de Deus, senão a existência de determinado Deus, isto é, dum Deus com determinados atributos. Demonstrar que o universo é efeito de uma causa é uma coisa; demonstrar que o universo é efeito de uma causa inteligente é outra coisa; demonstrar que o universo é efeito de uma causa inteligente e infinita é outra coisa ainda; demonstrar que o universo é efeito de uma causa inteligente, infinita e benévola outra coisa mais. Importa, pois, ao discutirmos o problema da existência de Deus, nos esclareçamos primeiro a nós mesmos sobre, primeiro, o que entendemos por Deus; segundo, até onde é possível uma demonstração. 
O conceito de Deus, reduzido à sua abstração definidora, é o conceito de um criador inteligente do mundo. O ser interior ou exterior a esse mundo, o ser infinitamente inteligente ou não — são conceitos atributários. Com maior força o são os conceitos de bondade, e outros assim, que, como já notamos têm andado misturados com os fundamentais na discussão deste problema. 
Demonstrar a existência de Deus é, pois, demonstrar, (1) que o universo aparente tem uma causa que não está nesse universo aparente como aparente (2) que essa causa é inteligente, isto é, conscientemente activa. Nada mais está substancialmente incluído na demonstração da existência de Deus, propriamente dita. 
Reduzido assim o conteúdo do problema às suas proporções racionais, resta saber se existe no raciocínio humano o poder de chegar até ali, e, chegando até ali, de ir mais além, ainda que esse além não seja já parte do problema em si, tal como o devemos pôr." 
Fernando Pessoa, in 'Ideias Filosóficas'



Na busca de qualquer resposta que se pretenda obter, é sempre imprescindível que se compreenda primeiramente a pergunta. É necessário delimitar o objecto de investigação em contornos bem estabelecidos, pois a mente humana não tem outro modo de conhecer seja o que for. Podemos pesquisar e ver que diversas culturas e filosofias nos dizem que temos outros recursos humanos, para além das ferramentas da mente e que nos permitem conhecer a realidade de formas mais directas e completas. No entanto não me debruçarei sobre isso no presente texto. 
A mente humana não consegue abarcar nem trabalhar com o conceito de infinito, e por isso dedica-se a delimitar os conceitos com que trabalha. Consoante os limites que damos à nossa pergunta, assim teremos respostas mais ou menos fiáveis. Se o limite que lhe damos aproxima-se, sem nunca o ser, do infinito, poderemos dizer que a resposta é uma muito boa aproximação da verdade, que nunca alcançaremos totalmente com a mente. Mas se os nossos limites forem estreitos e demasiado restritos, acabaremos por encontrar uma resposta à medida do nosso entendimento, que é estreito e restrito. 
O muito usado cliché "abrir a mente", torna-se neste caso necessário a toda a procura humana por respostas nas questões da vida, desde as mais abstratas, que tocam já os mistérios da vida às mais comuns e relativas aos desafios do dia-a-dia. Abrir a mente é identificar os limites que damos às coisas e alargá-los, pondo luz sobre caminhos nunca pisados. Ter novas experiências, desenvolver novas ideias, formar novos conceitos. É subir uma escada onde vamos galgando patamares de certezas e verdades relativas que se renovam em cada passo, na aproximação para algo mais claro e mais fundamentado, ou construir, como o Nautilus, cada compartimento a seu tempo, fechando-o para acima desse construir um novo, usando a harmonia da Regra de Ouro que se estuda na matemática. 
É neste percurso que se dissipam as dúvidas, os medos e os preconceitos. É nesta atitude, que o percurso da ignorância para a sabedoria vai acontecendo, e a Vida, sendo sempre a mesma e una, adquire o dom de se renovar perante os nossos olhos, à medida da renovação que se sucede em nós mesmos.

Sobre os estados indesejados dentro de nós mesmos



Hoje perdi-me no tempo e ia quase ficando (não fosse o segurança dar comigo) fechada num departamento. É bom quando nos concentramos tanto em algo que perdemos noção do tempo, do espaço, do resto do mundo, e nos dedicamos exclusivamente a algo que nos propomos fazer. Vivemos aquela dimensão atemporal que está fora do mundano, onde reside a nossa essência que sempre espera poder recolher toda a nossa atenção. Afinal Einstein tinha mesmo razão, o tempo é relativo, e atrevo-me a dizer mais: é uma ilusão, fruto da nossa incapacidade de vivenciar o Agora, essa dimensão em que entramos tão raras vezes... Vivemos constantemente a reviver o passado e a projectar um futuro fantasiado nas nossas mentes...

Um acontecimento aborrecido que me perturbou inicialmente pôs-me no caminho dessa vivência. Afastei-me conscientemente dessa perturbação, que já jazia no passado, ainda que recente (e por isso mesmo para quê reviver em pensamentos circulares e emoções negativas?), e entrei no momento presente. E redescobri que nesse momento, e também neste em que escrevo, não existe problema algum que nos perturbe. Por isso deixei de lado todo o turbilhão emocional que se queria impor e disse um "basta". Eu é que decido que sentimentos ter, que pensamentos povoam a minha mente, que instintos opto por seguir, que reações face ao mundo externo terei, que acções tomo. Só eu tenho esse poder. Não há mais nada nem ninguém que o tenha. Está tudo dentro de nós, todos os recursos, todas as respostas, toda a verdade, toda a alegria, toda a felicidade, todas as potencialidades que sonhamos alcançar um dia e ainda outras que ainda nem nos atrevemos a sonhar, ou sabemos que sejam possíveis. Apenas temos que buscar dentro de nós e para isso precisamos silenciar primeiro as vozes interiores que nos perturbam todos os dias na forma de tristeza, de frustração, de raiva, de impaciencia, de preguiça, medo, de tantas outras coisas...

Num dia de tempestade, nublado, não é possível ver o Sol... Hoje foi mais um dia em que vi o Sol, pois ascendi além das nuvens negras e turbulentas. Tudo devido a uma situação menos boa que me surgiu na vida. Por isso, não há situações más, não existe injustiça, não existe o caos nem o azar. Tudo acontece para nosso bem, como aquela palmada que apanhámos dos nossos pais quando fazíamos asneiras em crianças. Os problemas, as dificuldades, as dores... fazem-nos crescer e ficar mais fortes. Embora seja uma ideia cliché, são poucas as pessoas que realmente se apercebem disto ao ponto de entenderem profundamente esta verdade no meio da angústia (nos dias bons é muito fácil) e viverem-na, tranquilamente de mãos dadas com a dor, tratando-a pelo nome e dizendo-lhe nos olhos "existes mas não me dominas". Perceber a vida assim dá-nos alento, vivifica a nossa esperança e providencía um sentido para a vida que hoje em dia nos escapa por entre os dedos cada vez que olhamos pela janela, ou ligamos a televisão para ver as notícias.

Amanhã, está atento(a) às tuas emoções, aos teus pensamentos, observa-os como se estivesses fora de ti. Sempre que vier alguma emoção ou pensamento que te perturbe, que esteja em contínuo "replay", que não desejas ou que não te traga nada de bom, foca toda a tua atenção nele e diz com todo o teu ser: "não". E depois põe a tua atenção noutra coisa qualquer que te faça bem, que seja útil a ti ou a outro, que te faça ter pensamentos mais harmoniosos ou emoções mais tranquilas e estáveis. Observarás, mais ou menos rapidamente, consoante o teu nível de domínio, que esses estados se extinguem como se fossem um fogo sem oxigénio para o alimentar ou uma erva daninha sem água. Tu tens esse poder e podes exercê-lo todos os dias, agindo directamente sobre as causas dos teus sofrimentos presentes e futuros, e encaminhando-te rumo à felicidade e estabilidade interior que tanto procuras.

Tem um óptimo dia!

O significado da mandala



"Mandala é uma palavra sânscrita, que significa "círculo mágico": o seu simbolismo engloba todas as figuras expostas concentricamente, todos os alinhamentos radiais ou esféricos, todos os círculos ou quadrados com um ponto central. É um dos símbolos mais antigos (a mais antiga forma conhecida é o disco do Sol) e encontra-se em todo o mundo. [...] Historicamente, o mandala serviu de símbolo representativo da divindade, quer com a finalidade de a clarificar filosoficamente, quer para fins de adoração." 

Frieda Fordham, in "Introdução à psicologia de Jung"



As mandalas fazem parte da tradição Budista Tibetana. 
As areias coloridas que compõem a mandala eram, no passado, obtidas a partir de rochas coloridas, que seriam esmagadas para obtenção da areia. Actualmente usam-se agentes naturais para colorir as areias provenientes de qualquer rocha branca. Usa-se gesso em pó para a cor branca, carvão para o preto, uma mistura de gesso com carvão para o azul, misturando areias de rocha vermelha com o preto obtêm o castanho e do vermelho e branco fazem côr-de-rosa. Outros agentes de coloração são o milho, pólen de flores ou raízes e cascas de árvores em pó.
Primeiramente os monges desenham os traços geométricos da mandala com precisão. Depois, colocam os grãos coloridos com a ajuda de pequenos tubos, funis e raspadores, demorando várias semanas a fazê-lo. Geralmente vários monges trabalham numa mandala, criando-a a partir do centro para as extremidades.
Assim que é terminada a mandala, é feita uma cerimónia onde a mandala é destruída.
As mandalas simbolizam, entre outras coisas, a transitoriedade da vida material, a não-permanência, que faz parte da doutrina budista. Cada mandala ainda tem um simbolismo específico, associado às formas e cores que a constituem. O desapego das coisas materiais é posto à prova na destruição da mandala, assim como é requerida a paciência, dedicação e concentração na construção da mesma. É o apego às coisas que não permanecem que nos gera dor. Pois quando nos ligamos a algo que subitamente deixa de existir, sentimos que essa parte de nós que se havia ligado sofre um corte, e como qualquer corte físico, sentimos dor. Dependendo da natureza dessa ligação e da intensidade da mesma, assim também é maior ou menor a dor correspondente. 
A natureza humana não se compraz no apego que traz a dor, mas na capacidade de trazer à manifestação a essência das coisas, aquela que sempre É, e que não é transitória. Essa essência jaz em si mesmo, mas também em tudo o que o rodeia, e cada ser tem o seu modo de manifestar a essência que é una na sua raiz. E é por isso que na tradição budista existe um respeito por todos os seres, um respeito pela vida. Pois o dever do ser humano é ajudar ao desenvolvimento dessa vida, que não é a vida transitória e por isso mesmo ilusória, a que a nossa personalidade se apega, mas à Vida que através dela se quer manifestar, umas vezes de forma tosca e pouco desenvolvida, outras de maneira resplandecente e capaz de transformar o mundo. 



A origem do amor



É errado pensar que o amor provém do companeirismo de longa data ou do cortejo preserverante. O amor é filho da afinidade espiritual e a menos que essa afinidade seja criada num momento, ela não será criada por anos ou mesmo gerações.
 Khalil Gibran






O Tsuru



Créditos: kekremsi


Eram amigos de longa data.
Ela, sempre tímida e reservada, deixava poucas pessoas entrar no seu mundo, mas ele, com aquele coração generoso e risada fácil, em pouco tempo lhe levantou o espírito aventureiro e a fez rir. As muralhas do seu coração caíram e sentia-se verdadeiramente feliz, pela primeira vez, na companhia daquela brisa aromática que era o seu amigo. Ele ensinava-lhe a ter mais fé na humanidade, que já há muito julgava totalmente perdida. Abriu-lhe a caixa de Pandora dos seus sonhos perdidos e incitava-a a voltar a persegui-los com a confiança de quem acredita no bem e na vida. Certo dia, ele interrompeu a conversa quando encontrou uma folha azul perdida no meio de um livro. Estavam a falar de sonhos, e do que faz as pessoas felizes. Pegou na folha azul e começou a fazer movimentos rápidos, dobrando e manipulando a folha de maneiras que ela não conhecia. Quando terminou, mostrou-lhe um pequeno pássaro azul e disse-lhe: “Isto é um Tsuru, um pássaro de papel em Origami. É para que nunca te esqueças de voar, porque tu és um pássaro livre.”

Naquela noite, ela deitou-se com o pássaro de papel ao lado, aninhado confortavelmente na almofada. Olhava para ele. E quanto mais olhava, mais se identificava com ele, e mais incómoda se sentia na sua segurança de muralhas impenetráveis e rígidas. O seu amigo havia entrado no seu castelo e ela nunca se tinha questionado como. Agora percebia: tinha aberto nas suas muralhas uma brecha, que agora lhe permitia ver o mundo lá fora e desejá-lo. Agora não lhe bastava mais estar ali, tinha que sair e voar pelo mundo. Uma liberdade desconhecida inundou-lhe o coração. Sentiu os lençóis, a cama, o quarto, toda a casa, e em breve voava pelas ruas, viu-as de cima até sair da cidade e viajou para outros países exóticos e nunca vistos. Já penetrava profundamente no reino dos sonhos. E estes, quando acordou na manhã seguinte, estavam tingidos de realidade, à espera apenas que ela esticasse a mão para os alcançar. Aquele pequeno pássaro mudou-lhe a vida e nunca mais seria a mesma daí em diante. Guardou-o na sua gavetinha de cabeceira e no seu coração.

Muitos anos se passaram desde essa noite, em que decidiu pela primeira vez, fazer algo de extraordinário da sua vida. Ela, que nunca vira mais do mundo do que a sua própria cidade e tivera apenas umas pequenas incursões à cidade vizinha para fazer umas compras especiais, iria sair de casa para viajar. Antes de ir, pôs tudo à venda, sem se preocupar em guardar nada em especial. Afinal, o objectivo era largar uma vida velha e sem sentido, aprisionada pelas muralhas que desejava ver destruídas, para construir uma totalmente nova e entusiasmante. E como já tinha o pássaro no coração, esqueceu-se, com o entusiasmo da viagem, de guardar o que tinha na gaveta.
Mas o destino não o queria deixar ir.

Depois de muito tempo sem conseguir vender a casa, decidiu-se em tentar vender pelo menos o seu recheio, aproveitando um regresso temporário à sua cidade natal. E finalmente arranjara compradores! Hoje viria alguém para comprar a mobília do quarto. O novo proprietário da mesinha de cabeceira (vendida juntamente com todo o recheio do quarto), chegou cedo e colocou tudo na sua carrinha de caixa aberta. Ao arrancar para se ir embora (apressadamente, pois o negócio tinha sido bom, não fosse a menina arrepender-se), a gaveta cai desamparada, no chão, e aí ficou, sem que ele se apercebesse. Não sofreu sequer um risco: era de madeira antiga, trabalhada, robusta. E o pássaro, que nela habitava, tinha-se recusado a ir embora, como se soubesse faltar cumprir o resto da sua missão. Ela ainda tentou chamar novamente o homem, mas este, impaciente por chegar a casa com novidades de uma boa compra, nem a ouviu.

Ao preparar-se para recolher a gaveta, vê o pássaro azul - ainda impecavelmente preservado - destacando-se de todo o conteúdo da gaveta, já metade espalhada pelo passeio. E repara em algo que nunca tinha visto: o pássaro com os tombos, abriu a asa e revelou algo escrito numa dobra da asa. Pegou no Tsuru e leu: “Nunca te esqueças de voar. E quando voares, não te esqueças de mim.” Ela sorriu e pensou no seu amigo de longa data, que tinha deixado de ver desde que saiu para viajar pelo mundo e ver milhares de coisas novas. Como se podia ter esquecido dele?! Ele que lhe tinha atiçado o fogo que lhe libertou a alma! Foi assim que percebeu, subitamente, que um pássaro preso não é feliz, mas, por outro lado, um pássaro que voe continuamente, sem dar descanso às suas asas, sem ligações a nada nem ninguém, sofre também de infelicidade. ”Um pássaro também precisa de um ninho. Um ninho que não o prenda, mas para onde possa voltar quando as suas asas estiverem cansadas.” – pensou. Mas o ninho não era a sua casa em Londres, que tantas vezes tentou vender. Era aquele coração bondoso, aquele riso fácil e generoso que já não via há anos e que recordava como se estivera na sua companhia ainda ontem.

Decidiu ligar-lhe. Do outro lado esperava uma voz áspera, amargurada, que apontaria o abandono indigno de uma verdadeira amiga. Mas o que encontrou foi apenas um “Olá” feliz e uma pergunta bem-disposta: “Estou a ver que já terminaste de voar. Só gostava que não tivesses demorado tanto tempo! Fico muito feliz que não te tenhas esquecido totalmente de mim. Que tens feito?”
Nessa noite repousou com o coração alegre e preenchido. Sentiu-se novamente em casa, abandonando as lembranças coloridas e atribuladas de Amesterdão e recordando os bons momentos passados naquele lugar, naquela casa, naquela cidade. Voltaria a vê-lo no dia seguinte. E no dia depois. E em pouco tempo, tudo era como dantes: amigos inseparáveis, até que um dia, mais tarde, nasceu um amor. E no âmago deste ninho que ela tinha descoberto, o amor uniu-os cada vez mais, ensinando-os a partilhar a vida e assim voaram juntos, levando o seu ninho para onde quer que fossem.

E o Tsuru nunca mais ficou esquecido numa gaveta, ou noutro sítio sem ser visto: ficou vigilante, emoldurado e pendurado à entrada da casa (que nunca foi vendida), como se dissesse a todas as pessoas que lá entravam: “E tu também, que nunca te esqueças de voar.”


Con(tacto)


"Hand" - Créditos: Open Grave


Ser mudo perante a necessidade de palavras: crime capital do Verbo!
Congelar frente à oportunidade de uma boa acção: não há maior covardia!...
Ausentar-se da dificuldade alheia sem nada ofertar... insensibilidade terrível...
É inumano não presentear outro Ser humano com o melhor de nós mesmos.
Ainda que seja apenas com um sorriso, num "bom dia",
banhado na sinceridade de que assim seja para quem nos escuta.
Ou que se traga simplesmente uma companhia, 
a um espaço que antes era frio, triste e vazio.