O problema da existência de Deus



"Os argumentos relativos ao problema da existência de Deus têm sido viciados, quando positivos, pela circunstância de frequentemente se querer demonstrar, não a simples existência de Deus, senão a existência de determinado Deus, isto é, dum Deus com determinados atributos. Demonstrar que o universo é efeito de uma causa é uma coisa; demonstrar que o universo é efeito de uma causa inteligente é outra coisa; demonstrar que o universo é efeito de uma causa inteligente e infinita é outra coisa ainda; demonstrar que o universo é efeito de uma causa inteligente, infinita e benévola outra coisa mais. Importa, pois, ao discutirmos o problema da existência de Deus, nos esclareçamos primeiro a nós mesmos sobre, primeiro, o que entendemos por Deus; segundo, até onde é possível uma demonstração. 
O conceito de Deus, reduzido à sua abstração definidora, é o conceito de um criador inteligente do mundo. O ser interior ou exterior a esse mundo, o ser infinitamente inteligente ou não — são conceitos atributários. Com maior força o são os conceitos de bondade, e outros assim, que, como já notamos têm andado misturados com os fundamentais na discussão deste problema. 
Demonstrar a existência de Deus é, pois, demonstrar, (1) que o universo aparente tem uma causa que não está nesse universo aparente como aparente (2) que essa causa é inteligente, isto é, conscientemente activa. Nada mais está substancialmente incluído na demonstração da existência de Deus, propriamente dita. 
Reduzido assim o conteúdo do problema às suas proporções racionais, resta saber se existe no raciocínio humano o poder de chegar até ali, e, chegando até ali, de ir mais além, ainda que esse além não seja já parte do problema em si, tal como o devemos pôr." 
Fernando Pessoa, in 'Ideias Filosóficas'



Na busca de qualquer resposta que se pretenda obter, é sempre imprescindível que se compreenda primeiramente a pergunta. É necessário delimitar o objecto de investigação em contornos bem estabelecidos, pois a mente humana não tem outro modo de conhecer seja o que for. Podemos pesquisar e ver que diversas culturas e filosofias nos dizem que temos outros recursos humanos, para além das ferramentas da mente e que nos permitem conhecer a realidade de formas mais directas e completas. No entanto não me debruçarei sobre isso no presente texto. 
A mente humana não consegue abarcar nem trabalhar com o conceito de infinito, e por isso dedica-se a delimitar os conceitos com que trabalha. Consoante os limites que damos à nossa pergunta, assim teremos respostas mais ou menos fiáveis. Se o limite que lhe damos aproxima-se, sem nunca o ser, do infinito, poderemos dizer que a resposta é uma muito boa aproximação da verdade, que nunca alcançaremos totalmente com a mente. Mas se os nossos limites forem estreitos e demasiado restritos, acabaremos por encontrar uma resposta à medida do nosso entendimento, que é estreito e restrito. 
O muito usado cliché "abrir a mente", torna-se neste caso necessário a toda a procura humana por respostas nas questões da vida, desde as mais abstratas, que tocam já os mistérios da vida às mais comuns e relativas aos desafios do dia-a-dia. Abrir a mente é identificar os limites que damos às coisas e alargá-los, pondo luz sobre caminhos nunca pisados. Ter novas experiências, desenvolver novas ideias, formar novos conceitos. É subir uma escada onde vamos galgando patamares de certezas e verdades relativas que se renovam em cada passo, na aproximação para algo mais claro e mais fundamentado, ou construir, como o Nautilus, cada compartimento a seu tempo, fechando-o para acima desse construir um novo, usando a harmonia da Regra de Ouro que se estuda na matemática. 
É neste percurso que se dissipam as dúvidas, os medos e os preconceitos. É nesta atitude, que o percurso da ignorância para a sabedoria vai acontecendo, e a Vida, sendo sempre a mesma e una, adquire o dom de se renovar perante os nossos olhos, à medida da renovação que se sucede em nós mesmos.