Por vezes o que chamas de azar é mesmo a tua sorte







"Às vezes, não conseguir o que você quer é uma tremenda sorte."

Dalai Lama



Bom dia! 
Saber querer o que se deve querer, aquilo que é de facto melhor para nós e não o que satisfaz apenas o nosso ego, desejos ou vícios, muitas vezes sob um disfarce de benefício a curto prazo, é um triunfo. 
Querer é poder, no entanto, há - felizmente - casos em que nos é trancado o acesso ao que desejamos. 

Vejam sempre o outro lado da moeda. Aproveitem e dêem valor à misericórdia da Vida, que nos quer poupar a mais dores do que aquelas que nos são justamente devidas, pelos erros que cometemos aqui e ali. As dores "justamente devidas" que temos que passar, são aquelas que acontecem para nosso próprio bem, isto é, para nos proporcionar o crescimento e um evoluir de consciência que muitas vezes só advém da experiência e da dor que nos força a ver e a fazer as coisas de modo diferente. Ao serem bem ultrapassadas, essas dores, vemos que saímos sempre do outro lado desse túnel escuro e angustiante mais fortes e seguros. Assim é como o comum ser humano aprende na vida. 

Por vezes teimamos em querer abrir portas fechadas, em querer seguir por caminhos de ilusão que apenas têm espinhos e repetidos buracos negros, em insistimos em pôr na mente ideias que não nos trazem nada de bom e que na maior parte das vezes fazem mesmo é mal, em cultivarmos emoções que apenas nos atraem situações e pessoas erradas e tudo isto nos traz, mais cedo ou mais tarde, sofrimento, que por vezes nos parece que vem injustamente, porque parece vir "do nada", sem nos apercebermos que a causa de tudo isso somos nós e a nossa insistente vontade em trilhar o caminho da dor.

Demoremo-nos um momento em perceber a tremenda sorte que pode ser essa porta fechada - a que desesperadamente teimamos em abrir - que ao não ceder à nossa insistência, não nos revela também depois uma realidade diferente e mais dura do que a que esperávamos, e da qual talvez teriamos posterior dificuldade em fugir.

Sintamos a alegria de não pisar aquele caminho que nos parece de ouro e pedras preciosas mas que depois se iria revelar fútil, estéril e cheio de dificuldades vãs, que não levam a lado nenhum, e nem traria sentido à nossa vida.
Tentemos perceber a sorte que é podermos impedir todas as "vontades" impulsivas ou tolas, mas que na altura nos parecem sábias e necessárias, que vêm sempre primeiro na forma de pensamentos, depois emoções e finalmente tornam actos, de se manifestarem quando querem, de as podermos dominar seja no nosso mundo interior ou exterior, sob pena de darmos asas ao pior de nós, de sofrermos com isso e fazermos sofrer também os outros, de quebrar coisas que não mais se consertam por mais que choremos, de entrarmos em espirais negativas que nos filtram os olhos com uma tela negra e fatalista, de não vivermos nem desenvolvermos o melhor de nós e por consequência, apenas atrairmos o pior dos outros e do mundo.

Percebamos a sorte que são as dificuldades que por vezes passamos e que nos dizem: "não é por aí" ou "não estás a ver bem as coisas, redefine os teus valores, as tuas prioridades de vida", "estás iludido pelas aparências, vê o que está oculto", ou simplesmente "precisas de ultrapassar isto para seres mais forte, porque sendo mais forte serás mais feliz".

A Vida não é cega nem ao acaso. É uma engrenagem dinâmica que tudo move num sentido, num universo ou Unus+Versus. É importante perceber a origem e o significado desta palavra. Em latim, Unus: um, no sentido de tudo num só, ou unidade + Versus: rotação, transformação, rumo - o que resulta em: "tudo transformado como um só ou num só rumo/sentido". Sentido esse que só iremos desvendar à medida que vamos percebendo as coisas como são (e não como as vemos por detrás de todos os nossos filtros pessoais), à medida que nos vamos conhecendo cada vez melhor a nós (e assim começar a ter mão nas estruturas psico-mentais que nos fazem querer o que na realidade não é o melhor para nós) e por consequência conhecer melhor o outro (o que nos faz ser mais tolerantes e capazes de ajudar realmente o próximo - por vemos que o outro não é na realidade diferente de nós nos pontos fundamentais que constituem a essência de um ser humano) e em último instante, conhecer as engrenagens do mundo, do universo, de tudo o que existe (o que nos permite dar um sentido, um rumo à nossa vida; construir um eixo que guie todos os nossos actos a um fim que nos preencha aquele vazio interior que muitos sentem).

Porque está tudo inteligado. 
E talvez seja por isso que estás a ler isto aqui e agora. Porque a Vida encontra sempre um modo de falar contigo. Com todos nós. Nem sempre é de forma tão directa como este texto. Às vezes são pequenos sinais que nos passam ao lado, porque vamos distraídos a olhar para a aparência das coisas, e assim insistimos em ignorar, ignorar, ignorar... até ao dia em que não podemos ignorar mais pois a Vida vai aumentando o volume com que nos grita aos ouvidos, até que decidamos ouvi-la. Depois vem uma doença, uma separação, um despedimento, uma crise de identidade, uma pessoa que morre... foi a Vida que teve que gritar mais alto para nos obrigar a parar e estar num estado mais receptivo a ouvir.

E mesmo com todas as dores e desgraças, já viste a sorte que é teres uma Vida, uma verdadeira Mãe Natureza, que grita contigo, que se preocupa contigo, para que faças o que realmente te leva a ser feliz?... Uma crise não é mais do que a Vida a gritar contigo, a dar-te dores para que finalmente mudes de sentido, para que unas todas as rotas distintas que tens em cada campo da tua vida em uma só rota, com uma só direcção, para que deixes os velhos modos de ser que te levam inconscientemente a campos de espinhos e buracos, para que possas a partir desse momento começar a encontrar a tua felicidade.